Ações do Ministério Público do Maranhão Revelam Complexa Teia de Corrupção e Lavagem de Dinheiro Envolvendo a Cúpula Política e Empresarial da Cidade
O Ministério Público do Maranhão (MP-MA) deu continuidade, nesta quinta-feira (8), à série de depoimentos virtuais com vereadores de Turilândia, no Maranhão, em uma investigação que apura o desvio de R$ 56 milhões da prefeitura municipal.
A operação, que já resultou na prisão do prefeito, da vice-prefeita e de grande parte da Câmara de Vereadores, revela um intrincado esquema de corrupção e fraude, abalando as estruturas políticas locais.
Os interrogatórios visam esclarecer a participação dos parlamentares no recebimento de propinas para aprovar prestações de contas sem questionamentos, conforme informações divulgadas pelo G1.
A Operação e os Depoimentos Chave
Os depoimentos desta quinta-feira incluíram nomes como José Ribamar Sampaio, Mizael Brito Soares, Nadianne Judith Vieira Reis e Daniel Barbosa Silva, entre outros vereadores que foram interrogados virtualmente.
Apesar da extensa lista de ouvidos, o MP-MA informou que a maioria dos investigados optou por exercer o direito constitucional de permanecer em silêncio durante os interrogatórios, realizados na sede do Ministério Público em São Luís.
Apenas Gerusa de Fátima Nogueira Lopes, chefe do Setor de Compras, prestou depoimento, negando participação no esquema. Segundo as investigações, ela teria auxiliado na gestão financeira dos recursos desviados e ocultado a não realização de contratos.
Outras figuras importantes também foram ouvidas, incluindo Eustáquio Diego Fabiano Campos, médico neurocirurgião apontado como agiota para campanhas políticas, e Clementina de Jesus Pinheiro, pregoeira do município de Turilândia.
Wandson Jonath Barros, contador do município e suposto controlador financeiro dos desvios, e a ex-vice-prefeita Janaína Soares Lima, ligada ao Posto Turi, também foram interrogados, juntamente com Marlon de Jesus Arouche Serrão, marido de Janaína e proprietário do posto.
Como Funcionava o Esquema de Desvios
As investigações do MP-MA apontam para um desvio de mais de R$ 56 milhões dos cofres públicos de Turilândia, orquestrado através de empresas fictícias criadas pelo prefeito e seus aliados.
O grupo operava de forma hierarquizada, com uma clara divisão de tarefas entre agentes políticos, operadores financeiros e empresários, facilitando a execução das fraudes.
Há fortes indícios de organização criminosa, fraude à licitação, corrupção ativa e passiva, peculato e lavagem de dinheiro, crimes que teriam sido cometidos durante a gestão do prefeito Paulo Curió, entre 2021 e 2025.
Um dos métodos centrais do esquema era a “venda de notas fiscais”, onde empresas contratadas emitiam documentos sem a correspondente prestação de serviços, devolvendo a maior parte dos valores ao núcleo político da organização, conforme decisão do Ministério Público.
O Papel dos Principais Envolvidos
O prefeito José Paulo Dantas Silva Neto, conhecido como Paulo Curió (União Brasil), é apontado como a liderança máxima da organização criminosa e o destinatário final de grande parte dos valores desviados.
Ele atuava como ordenador de despesas, direcionador de licitações e pagador com recursos públicos, mesmo sem a comprovação da execução dos serviços, conforme detalhado na investigação do MP-MA.
Tânia Karla Cardoso Mendes Mendonça, a vice-prefeita de Turilândia, integrava o núcleo empresarial e operacional, vinculada a empresas usadas no esquema e participando ativamente da movimentação e circulação dos recursos desviados.
A Justiça destaca que pessoas como Tânia eram cruciais para “dar aparência de legalidade às contratações e facilitar a lavagem de capitais”, sendo uma peça ativa na execução prática das fraudes.
A ex-vice-prefeita Janaína Soares Lima é considerada uma peça central, especialmente no núcleo empresarial. Ela controlava de fato o Posto Turi, a empresa que mais recebeu recursos do município, totalizando R$ 17.215.000,00 dos cofres públicos de Turilândia.
Janaína atuava como procuradora da empresa mesmo em cargo político e participava diretamente da retenção de percentuais dos contratos, tratando os valores como um “imposto” dentro do esquema, além de cobrar pagamentos diretamente do prefeito.
Um acordo entre Janaína, seu marido Marlon Zerrão, e o prefeito Paulo Curió previa a retenção de 10% dos valores dos contratos do Posto Turi, montante destinado ao pagamento da faculdade de medicina de Janaína, enquanto os 90% restantes eram entregues ao prefeito ou a seus indicados.
Repercussões e o Futuro da Investigação
A Operação do MP-MA em Turilândia expõe a fragilidade da fiscalização e a audácia de esquemas de corrupção que drenam recursos essenciais de municípios.
Com a cúpula política sob investigação e muitos envolvidos em silêncio, o processo promete novas revelações sobre a extensão do desvio de R$ 56 milhões e os impactos para a população de Turilândia.
A Justiça continua apurando os fatos para garantir a responsabilização dos envolvidos e a recuperação dos valores desviados, em um caso que choca pela sua dimensão e pela quantidade de agentes públicos implicados.