Evidências crescentes revelam que a prática comum em esportes, como o futebol, pode desencadear doenças neurológicas décadas após a aposentadoria dos gramados.
O ato de cabecear a bola é uma das jogadas mais emblemáticas e emocionantes em esportes como o futebol, capaz de decidir partidas e levar torcedores ao delírio. No entanto, por trás da glória, existe uma preocupação crescente sobre os impactos a longo prazo dessa prática na saúde cerebral dos atletas.
Pesquisas recentes têm levantado um alerta importante, conectando os repetidos golpes na cabeça, tão comuns em campos e quadras, a um risco significativamente maior de desenvolvimento de doenças neurodegenerativas graves. A ciência aponta para uma ligação preocupante entre os cabeceios e condições como o mal de Alzheimer, Parkinson e a temida encefalopatia traumática crônica (ETC).
Este tema, embora pareça novo para muitos, tem raízes em estudos que datam de quase um século, mas que agora ganham um novo contorno com o avanço da neurociência. As descobertas são cruciais para a segurança dos atletas, conforme informação divulgada pelo g1.
A História por Trás dos Golpes na Cabeça
Os riscos associados aos esportes de contato não são uma novidade. Já em 1928, o patologista americano Harrison Martland descrevia uma condição peculiar entre lutadores profissionais, popularmente conhecida como “punch drunk”, ou “atordoamento por golpes”.
Os sintomas incluíam andar cambaleante e confusão mental, mais evidentes em lutadores que sofriam muitos golpes na cabeça. Em alguns casos, o atordoamento evoluía para um tipo de demência, posteriormente classificada como “demência pugilística”, inicialmente restrita ao boxe.
Contudo, nas últimas décadas, o entendimento sobre esse problema se expandiu consideravelmente. Casos emblemáticos como os do jogador de futebol Jeff Astle, que morreu aos 59 anos com demência precoce, e do astro do futebol americano Mike Webster, que faleceu aos 50 com declínio cognitivo, mudaram essa percepção.
Exames cerebrais em ambos os atletas revelaram que eles morreram de encefalopatia traumática crônica (ETC), uma designação moderna que substituiu a “demência pugilística”. Outros esportistas conhecidos, como David Duerson e o pugilista brasileiro Adilson “Maguila” Rodrigues, também conviveram com a ETC.
Willie Stewart, consultor em neuropatologia da Universidade de Glasgow, no Reino Unido, explica que a ETC é uma patologia cerebral degenerativa muito específica, observada apenas em pessoas com histórico de lesões ou impactos na cabeça. Ao microscópio, ela revela um padrão distinto de depósitos anormais de proteína tau no cérebro.
Segundo Stewart, “se você for jogador de futebol profissional e tiver demência, suas chances de ter ETC no cérebro são muito altas”. Este alerta ressalta a importância de reconhecer os perigos do cabeceio.
O Que as Pesquisas Atuais Revelam
Desde 2008, a professora de neurologia e patologia Ann McKee, da Faculdade de Medicina da Universidade de Boston, nos Estados Unidos, tem liderado estudos cruciais. Em 2023, McKee e sua equipe analisaram cérebros doados de 376 ex-jogadores de futebol americano da NFL.
O resultado foi alarmante: 91,7% deles apresentavam ETC. Embora esse número não represente o risco real na população geral de jogadores, já que pessoas com suspeita da condição são mais propensas a doar seus cérebros, ele é significativo. A incidência de ETC na população em geral é inferior a 1%.
McKee também diagnosticou ETC em ex-jogadores de beisebol, ciclistas e astros do hóquei, sempre com o denominador comum de golpes repetidos na cabeça. Contudo, não é apenas a ETC que preocupa, o cabeceio também está ligado a outras doenças degenerativas do cérebro.
O estudo Field, conduzido por Willie Stewart, examinou o histórico de saúde de cerca de 8 mil ex-jogadores de futebol profissional escoceses, comparando-os com 23 mil pessoas da população em geral. Os resultados, publicados em 2019, são preocupantes.
Ex-jogadores de futebol profissional mostraram uma propensão cinco vezes maior a desenvolver mal de Alzheimer, quatro vezes maior a sofrer de doença do neurônio motor e duas vezes mais probabilidade de desenvolver mal de Parkinson. No total, o risco de morte por doenças neurodegenerativas foi 3,5 vezes maior para eles.
Stewart ainda destaca que “o risco é maior nas posições em que ocorre a maior parte das cabeçadas”. Defensores correm risco muito mais alto, enquanto goleiros têm um risco similar ao da população em geral. Quanto mais longa a carreira profissional, maior o risco, variando de cerca do dobro para carreiras curtas a cinco vezes para as mais longas. Ex-jogadores de rugby também exibem um risco elevado.
Os Mecanismos de Dano Cerebral
Mas por que cabecear a bola causa tantos danos ao cérebro? A ETC, que geralmente só é diagnosticada após a morte, deixa emaranhados de proteína tau anormal no córtex cerebral. No entanto, o professor de radiologia Michael Lipton, da Universidade Columbia, nos EUA, utiliza ressonância magnética para detectar os primeiros sinais em jovens jogadores de futebol amador.
Sua pesquisa com jogadores que cabeceiam a bola com mais frequência revelou resultados inferiores em testes de memória e aprendizado. Além disso, identificou sinais claros de lesões na parte do cérebro logo atrás da testa, o córtex orbitofrontal, particularmente vulnerável a impactos.
A camada externa do córtex orbitofrontal, composta de massa branca, é especialmente suscetível. Lipton explica que a massa branca, que funciona como o “cabeamento em rede” do cérebro, é formada por filamentos muito finos, os áxons, que transmitem informações. Estes filamentos são extremamente vulneráveis à aceleração rápida de uma força súbita.
A mudança brusca de velocidade da cabeça durante o impacto faz com que o cérebro ricocheteie dentro do crânio, estirando os áxons e prejudicando sua conectividade. “Se você pensar no cabeceio, o impacto à cabeça é relativamente suave”, explica Lipton, “mas tem potencial de fazer com que as forças trafeguem através do cérebro”.
O cérebro, com sua consistência gelatinosa, comprime-se, retorce-se e deforma-se ao receber um impacto, causando tensão sobre os áxons. Pesquisas de Lipton demonstraram que o espaço entre a massa branca e a cinzenta no córtex orbitofrontal é onde ocorrem a maioria das lesões causadas pelo cabeceio.
Jogadores que cabeceiam mais de mil bolas por ano apresentaram danos significativamente maiores nessa região. A diferença de densidade entre a massa branca e cinzenta faz com que elas se movimentem em velocidades diferentes, criando forças de cisalhamento. Ainda não se sabe o que acontece em seguida, mas a hipótese é que repetidos impactos danifiquem vasos sanguíneos ou acionem inflamação crônica.
Willie Stewart sugere que a inflamação pode ser uma reação de cura que não termina adequadamente, levando a um processo inflamatório crônico. Ou, alternativamente, a lesão pode causar degeneração e morte de neurônios. “Provavelmente se trata de uma mistura de todos esses fatores, gerando problemas de longo prazo, mas é isso que estamos tentando identificar”, conclui Stewart.
Estratégias para Proteger os Atletas
Diante desses achados alarmantes, a questão é: o que pode ser feito para proteger atletas profissionais e amadores contra a demência na idade avançada? A tecnologia oferece algumas soluções, como capacetes para futebol americano com absorventes de choque líquidos, que prometem reduzir impactos em cerca de 30%.
No Reino Unido, as categorias inferiores de futebol já eliminaram o cabeceio, uma medida influenciada pelas pesquisas de Willie Stewart. Seu grupo também defende a redução da quantidade de cabeceios durante os treinos, onde a maioria dos impactos ocorre.
Stewart revela que “quando conversamos com os jogadores de futebol, descobrimos que eles podem cabecear a bola 70 mil vezes durante sua carreira, mas apenas 2 mil vezes durante os jogos”. Ou seja, 68 mil impactos na cabeça acontecem nos treinos, sem a atenção devida, e podem ser minimizados.
A prevenção, como sempre, é a melhor cura. “Se simplesmente parássemos de bater nossas cabeças contra as coisas, o risco cairia a zero”, afirma o pesquisador. No entanto, convencer as pessoas a mudar comportamentos arraigados em esportes populares é um desafio complexo, mas necessário para a saúde cerebral dos atletas.