Caxi ou Cachê? Lourenço e Lourival Revelam Mal-Entendido Histórico que Criou o Pagamento Fixo para Duplas Sertanejas no Brasil

Lourenço e Lourival, a dupla sertaneja mais antiga em atividade, detalham como o sucesso de ‘Como Eu Chorei’ em 1971 estabeleceu o pioneiro cachê para o gênero.

A história da música sertaneja é repleta de reviravoltas, mas poucas são tão curiosas e impactantes quanto a origem do cachê, a forma de pagamento que hoje sustenta milhares de artistas. Esse marco fundamental para a profissionalização do gênero nasceu de um inusitado mal-entendido.

Os protagonistas dessa narrativa são Lourenço e Lourival, irmãos que, aos 89 e 86 anos, continuam sendo a dupla sertaneja mais antiga ainda em atividade. Eles não apenas testemunharam, mas também foram os arquitetos de uma das maiores transformações do cenário musical brasileiro.

Em 1971, uma de suas canções, “Como Eu Chorei”, viria a se tornar um divisor de águas, não só para a carreira deles, mas para todas as futuras duplas sertanejas, criando o que hoje conhecemos como cachê, conforme informação divulgada pelo g1.

A Inovação de “Como Eu Chorei”

Apesar de hoje ser um clássico, a música “Como Eu Chorei” enfrentou forte resistência em seu lançamento. Críticos da época chegaram a prever o fim da carreira de Lourenço e Lourival, afirmando que a canção seria um erro fatal para a dupla.

A ousadia da composição estava na sua inspiração. A dupla buscou referências na Jovem Guarda, especialmente em “Quero que vá tudo pro inferno”, de Roberto Carlos. Essa fusão de estilos foi uma tentativa de renovar o sertanejo, que, segundo Lourenço, “já estava ficando repetitivo, só viola e violão”.

A inovação não parou por aí. Os irmãos introduziram instrumentos inéditos para o gênero, como gaita de boca e teclado, algo que chocou os puristas. “Eles falavam que que ‘Como Eu Chorei’ era iê-iê-iê e que sertanejo não pode cantar iê-iê-iê”, recorda Lourenço.

Mesmo diante das críticas e previsões negativas, Lourenço e Lourival mantiveram-se firmes. “Deixa falarem. Não me batendo, tá bom”, brinca Lourenço, mostrando a resiliência que os levou a se tornar uma das mais icônicas duplas sertanejas do Brasil.

O Mal-Entendido que Virou Cachê

O sucesso de “Como Eu Chorei” foi estrondoso, especialmente em Botucatu, São Paulo, onde uma rádio local tocava a música incessantemente. Foi esse sucesso que levou o dono da rádio a procurar a dupla em São Paulo, no Bar do Café, um ponto de encontro de artistas.

A proposta era para que Lourenço e Lourival cantassem na inauguração de uma nova emissora. Os irmãos, que na época estavam “tomando garapa, que era o nosso almoço”, como lembra Lourenço, foram surpreendidos com a oferta de um cachê.

Contudo, a palavra “cachê” gerou um hilário mal-entendido. Lourenço confessou ter achado que se tratava de “caxi”, um legume similar ao chuchu. “A nossa mistura na roça era aquilo. Aí eu falei: ‘Não aguento mais comer caxi, vim da roça esses dias’”, conta Lourenço.

Após o esclarecimento, e entendendo que se tratava de um pagamento fixo por apresentação, a dupla tentou calcular um valor baseado no que ganhavam em circos. Para a surpresa deles, o empresário ofereceu o dobro do que pediram, selando o primeiro cachê da história do sertanejo.

A praça de Botucatu lotou para vê-los. O sucesso foi tão grande que o empresário pagou um segundo cachê para que ficassem e se apresentassem novamente no domingo, um testemunho do impacto imediato da dupla e da nova forma de remuneração.

Legado e Influência Duradoura das Duplas Sertanejas

A mistura de sertanejo com Jovem Guarda, que marcou “Como Eu Chorei”, provou ser uma fórmula de sucesso duradoura. A canção se tornou uma referência e já foi regravada por grandes nomes da música brasileira, como Eduardo Costa e Ana Castela, perpetuando seu legado.

Lourenço e Lourival sentem um imenso orgulho de seu pioneirismo. “Nós abrimos o caminho. Depois veio o Leo Canhoto e Robertinho, Milionário e Zé Rico, tudo já com outras roupagens igual nós”, afirma Lourenço, destacando a influência em outras duplas sertanejas.

A história desses dois irmãos não é apenas sobre uma música de sucesso, mas sobre a coragem de inovar, a resiliência diante das críticas e a criação de um modelo de negócio que profissionalizou e impulsionou o gênero sertanejo para as gerações seguintes, solidificando o conceito de cachê no mercado musical.

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