Crise na Bolívia: Brasileiros Relatam Angústia e Falta de Dinheiro em Meio a Protestos que Bloqueiam Saída do País, Itamaraty Alerta

Viajantes como Gabriel Medeiros e Fabiane Gerotti Mendes enfrentam escassez de combustível e alimentos, além de bloqueios em estradas bolivianas, revelando o drama da situação.

A Bolívia vive dias de intensa agitação social, com **protestos generalizados** que têm impactado diretamente a vida de brasileiros que estavam no país a turismo ou a trabalho. Muitos se veem em uma situação de **angústia e incerteza**, com o dinheiro acabando e a impossibilidade de retornar para casa.

Bloqueios em estradas e até mesmo no acesso a aeroportos transformaram o que seriam viagens de lazer em verdadeiros **pesadelos logísticos e financeiros**. A crescente escassez de produtos básicos, como alimentos e combustível, agrava ainda mais o cenário para quem está retido.

A situação tem mobilizado o Ministério das Relações Exteriores do Brasil, o Itamaraty, que acompanha de perto os relatos e presta assistência consular, conforme informação divulgada pelo G1.

A Angústia de Gabriel em La Paz

Gabriel Medeiros, designer de Bauru, São Paulo, chegou a La Paz, capital da Bolívia, em 5 de maio, com planos de ficar apenas três dias. No entanto, os **protestos na Bolívia** o mantiveram na cidade por 18 dias, sem previsão de partida, devido aos **bloqueios nas estradas** do país.

Com um orçamento limitado para a viagem, Gabriel pretendia seguir de ônibus para o Peru. Contudo, o custo das passagens aéreas tem subido diariamente, atingindo valores que ele não consegue pagar. “Então estou ficando aqui, trabalhando a distância, esperando. Mas **o dinheiro está acabando**”, relata.

Hospedado em um albergue com outros turistas, o designer descreve que o dia a dia na cidade é, em geral, normal quando não há manifestações. Mas a **impossibilidade de seguir viagem** transformou a experiência de férias em uma crescente angústia. “Comecei a ter a sensação de que realmente não consigo sair daqui”, desabafa.

Gabriel conta que procurou a embaixada brasileira em La Paz, sendo informado de que a única solução seria a compra de uma passagem aérea. O Itamaraty confirmou ter recebido relatos de brasileiros com **dificuldades de deslocamento** e tem prestado assistência consular. O órgão recomendou evitar viagens não essenciais aos departamentos de La Paz e Oruro.

O Drama de Fabiane nas Estradas Bolivianas

A enfermeira Fabiane Gerotti Mendes, de 36 anos, de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, viveu dias de tensão ao se deparar com **bloqueios nas rodovias bolivianas**. Viajando de carro com destino ao Salar de Uyuni, ela precisou encurtar a viagem por **medo de não conseguir voltar ao Brasil**.

Fabiane encontrou seu primeiro bloqueio em Potosí, onde manifestantes haviam fechado a rodovia com pedras e árvores. “Nessa hora eu senti muito medo. Porque eles vieram em cima do meu carro, eu estava sozinha e ficaram perguntando se tinha alguém comigo”, lembra.

Ao decidir retornar para Sucre, a enfermeira enfrentou outro bloqueio em Aiquile, uma pequena cidade do interior. Ali, ficou presa por duas noites, lidando com a **escassez de combustível**. “Passei dois dias indo em todos os postos da cidade e não tinha gasolina. Até que no terceiro dia, eu consegui. Cheguei a ficar sem gasolina”, relata.

Para conseguir atravessar, Fabiane tentou passar pela rodovia durante a madrugada. Após uma tentativa frustrada, na madrugada de sexta-feira, ela finalmente conseguiu. “Fui às 4h da manhã e os manifestantes não estavam lá. Mas tinha uma fila de cinco quilômetros de caminhões. Foi uma angústia sem saber se eu ia conseguir”, descreve.

“Quando vi os carros atravessando, eu comecei a chorar. Não acreditei que ia finalmente sair dali”, disse Fabiane, que, apesar do clima de tensão, não presenciou confrontos violentos. Ela alerta: “Se eu pudesse dar um conselho às pessoas é que **não venham pra cá**. Tem muitos bloqueios e os protestos estão aumentando”.

Cotidiano Afligido e Escassez Generalizada

Os **protestos na Bolívia** têm se intensificado nos últimos dias, com marchas, confrontos e bloqueios que afetam o dia a dia da população boliviana e dos turistas. A **escassez de alimentos, combustível e medicamentos** se tornou uma preocupação crescente em diversas cidades, incluindo La Paz.

Segundo Gabriel Medeiros, os restaurantes na capital boliviana têm gradualmente aumentado os preços e reduzido as opções de pratos. “As pessoas têm reclamado que não têm chegado frango, que é algo que eles comem muito aqui”, observa o brasileiro.

Apesar das dificuldades e da escassez, Gabriel percebe nas ruas um **apoio significativo aos atos**. La Paz, um importante epicentro político com forte presença indígena e base de apoio do ex-presidente Evo Morales, reflete essa mobilização.

A analista política Luciana Jáuregui, em entrevista à BBC Mundo, descreveu a mobilização como vinda de vários setores, com uma “postura abertamente desestabilizadora”. Ela afirma que os manifestantes não se limitam a demandas específicas, mas exigem a **renúncia do presidente Rodrigo Paz**.

Os Motivos por Trás da Onda de Protestos na Bolívia

A Bolívia, sob a presidência de Rodrigo Paz há seis meses, enfrenta uma das piores crises econômicas desde a década de 1980, marcada por **escassez de combustível e moeda estrangeira**, além de uma inflação anual de 15%. Este cenário complexo serve de pano de fundo para os **protestos na Bolívia**.

O governo Paz acusa o ex-presidente Evo Morales de estar por trás das manifestações, algo que Morales nega. O ex-presidente, que governou entre 2006 e 2019, descreveu os atos como uma “insurreição popular de base”, segundo a agência de notícias EFE.

Entre as causas dos protestos estão a proposta de uma **reforma agrária** que gerou desconfiança entre grupos camponeses, a **eliminação de subsídios ao combustível** que elevou os preços e gerou questionamentos sobre a qualidade do produto, e a demanda por **aumentos salariais** de professores, que enfrentam a alta inflação.

Embora o presidente Paz tenha recuado em algumas medidas, como a reforma agrária, os protestos não cessaram e se espalharam para novos setores. A proposta de uma “reforma parcial” da Constituição, visando facilitar investimentos em setores como hidrocarbonetos e mineração, também tem sido alvo de críticas por movimentos sociais, que veem nela uma tentativa de privatização.

O presidente Paz nega as acusações de privatização, afirmando que “ninguém quer privatizar, ninguém quer aumentar tarifas, ninguém quer fazer muitas das coisas que algumas pessoas, alguns líderes e alguns interesses políticos estão tentando usar para confundir a população”, conforme reportagem de Ayelén Oliva, da BBC News Mundo.

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