O incidente, que levou o menino Pedro ao Hospital Pequeno Príncipe, expõe a complexidade da manutenção de espaços culturais renomados e a responsabilidade das instituições.
Um ensaio de dança no renomado Teatro Guaíra, em Curitiba, transformou-se em um pesadelo para uma família. Um pedaço de madeira, uma farpa de impressionantes 23 centímetros, soltou-se do palco e atravessou a perna de um menino de apenas 9 anos, Pedro, durante a atividade.
O grave incidente, ocorrido em um dos principais espaços culturais do país, acendeu um alerta sobre a segurança e a manutenção de estruturas que recebem milhares de artistas e espectadores anualmente.
A situação, que felizmente não deixou sequelas graves, gerou uma investigação policial e um debate entre a administração do teatro e a escola de dança, conforme informações divulgadas pelo g1.
A Farpa de 23 Centímetros e o Drama da Família
O momento de tensão começou quando o pedaço de madeira se desprendeu, atingindo a perna de Pedro. De imediato, uma profissional de saúde fez uma avaliação preliminar no local. A gravidade do ferimento, contudo, só foi plenamente compreendida no Hospital Pequeno Príncipe, para onde o menino foi levado no carro da família.
A mãe de Pedro, Patricia, relata que, inicialmente, pensaram tratar-se de uma farpa pequena. “De início, ele estava com a calça abaixada só até um pedacinho e tinha um pedaço de farpa. Aí eles olharam e falaram: ‘Vamos tirar aqui mesmo'”, conta ela. A surpresa veio quando a calça foi completamente retirada, revelando a extensão total da farpa.
Pedro foi encaminhado para uma cirurgia de emergência para a retirada do fragmento. Apesar da extensão do ferimento, que atravessou músculos e uma camada de gordura, o menino não sofreu sequelas permanentes, um alívio para a família.
Os médicos explicaram à mãe que Pedro “teve sorte”. O cirurgião enfatizou o risco: “Mãe, se pega mais para trás um pouquinho, poderia ter pegado uma artéria, poderia ter dado hemorragia. Se pega um pescoço, matava na hora. Nas costas, perfurava pulmão, perfurava um rim, coração”, detalhou Patricia.
Para Pedro, que pratica dança desde 2021 e estava se preparando para a apresentação desde a metade do ano, a frustração foi imensa. “Nos primeiros dias, ele não se conformava”, disse a mãe, emocionada. A principal preocupação do garoto era se ele conseguiria se recuperar a tempo para futuras apresentações.
Controvérsia sobre o Linóleo e a Manutenção do Palco
Dois dias após o acidente, a família foi procurada pela gestão do Teatro Guaíra, que expressou lamento pelo ocorrido. Em nota, a administração do teatro afirmou que foi oferecido atendimento imediato, com acionamento de uma equipe médica, mas que o serviço foi dispensado pelos responsáveis de Pedro.
O teatro também ressaltou que a manutenção do palco é realizada de forma periódica e contínua. Informou ainda que, após o incidente, instaurou um procedimento preliminar de verificação para buscar melhorias nos procedimentos e na segurança.
Um ponto central na defesa do teatro é a questão do linóleo, um piso técnico de proteção usado em palcos de dança. “Esse material estava devidamente instalado no palco e foi utilizado por outras escolas de dança que se apresentaram nos dias anteriores”, afirmou o Teatro Guaíra.
Contudo, a administração detalhou que “na noite anterior à apresentação, o coordenador da escola [de dança] solicitou a retirada do linóleo, por decisão cênica própria”. O palco do Auditório Bento Munhoz da Rocha Neto, onde ocorreu o acidente no Teatro Guaíra, passou por uma reforma completa há cerca de três anos e meio, sendo considerado relativamente novo.
Procurada pelo g1, a escola de dança se manifestou. Ela confirmou que o teatro disponibiliza o linóleo, mas que seu uso é opcional e que há recomendação para não usá-lo em casos de sapateado, que era justamente o estilo de dança da apresentação. A escola argumenta que, sem proibição expressa, a estrutura do palco deveria estar apta a receber espetáculos sem o linóleo, prática que realiza há mais de dez anos em outros teatros sem incidentes.
Investigação em Andamento e o Legado do Teatro Guaíra
Diante do ocorrido, a mãe de Pedro procurou o advogado Marluz Lacerda Dalledone, que apresentou uma notícia-crime no Núcleo de Proteção à Criança e ao Adolescente Vítimas de Crimes (NUCRIA). Um inquérito policial foi instaurado, e a criança foi ouvida por meio de escuta especializada, além de ser submetida a exame de corpo de delito.
O Teatro Guaíra é um dos ícones culturais de Curitiba, celebrando 140 anos em 2024 e tendo sido eleito “Melhor Casa de Espetáculos do Brasil” no Prêmio Cenym. Seus palcos recebem constantemente artistas de renome e abriga corpos artísticos de dança que ensaiam e se apresentam regularmente.
Em 2022, o espaço recebeu um investimento de R$ 600 mil para a restauração da estrutura de bastidores e do palco do Guairão. Mais recentemente, em setembro de 2024, o governador Ratinho Junior anunciou um repasse de R$ 50 milhões para uma série de melhorias, revitalização e modernização da estrutura, com previsão de obras para 2026.
Apesar de sua importância e dos investimentos, o acidente no Teatro Guaíra levanta questões cruciais sobre a adequação da infraestrutura para diferentes tipos de apresentações e a comunicação de riscos entre as instituições. O caso segue sob investigação, buscando esclarecer as responsabilidades e garantir a segurança em futuros eventos.