Aluna da USP Ribeirão denuncia racismo de colega: ‘Falou que eu era a cota do grupo’, entenda o caso que mobiliza a universidade

Priscila Motta da Rocha Antônio relata série de agressões e humilhações, levando a um processo administrativo na USP e à busca por justiça

Uma grave denúncia de racismo abala a Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto, onde uma estudante do curso de Nutrição, Priscila Motta da Rocha Antônio, acusa uma colega de sala de proferir comentários discriminatórios e humilhantes.

Priscila relata ter sido alvo de piadas e falas que a diminuíam, incluindo a afirmação de que ela seria a “cota do grupo”, em uma clara referência pejorativa à sua condição de cotista, buscando deslegitimar seu mérito acadêmico.

O caso, que ganhou repercussão após ser compartilhado nas redes sociais, levou a USP a abrir um procedimento interno para apuração, conforme informações divulgadas pela EPTV, afiliada da TV Globo, e pelo g1.

O início das agressões e o sentimento de isolamento na faculdade

Priscila Motta da Rocha Antônio compartilhou com a EPTV a dificuldade de seus primeiros dias na faculdade, sentindo-se muito sozinha. Essa vulnerabilidade a levou a se aproximar da colega que, posteriormente, a agrediria verbalmente. “Eu era muito sozinha na faculdade e comecei a andar com essa pessoa. Eu tinha que ser muito delicada, pisar muito em ovos, porque nunca sabia qual seria a reação dela e de que forma ela me trataria”, desabafou a estudante.

A primeira vez que Priscila se sentiu alvo de um comentário discriminatório ocorreu durante uma conversa com uma terceira pessoa sobre outro curso que ela gostaria de ter feito. Quando questionada sobre a dificuldade de passar nesse curso mesmo tendo sido aprovada em Nutrição, a colega teria interrompido abruptamente.

Foi nesse momento que a agressora proferiu a frase que marcou o início da série de ataques: “amiga, é porque ela é cota”. Priscila descreve que a fala foi dita de uma forma que buscava abertamente desmerecê-la, utilizando sua condição de cotista como um instrumento de humilhação e invalidando sua conquista na USP Ribeirão.

A escalada dos episódios de racismo e humilhação contínua

Após o incidente inicial, Priscila relata que os episódios de racismo se tornaram alarmantemente frequentes. A estudante sentia-se constantemente diminuída em suas interações com a colega, percebendo um padrão de comportamento que visava minar sua autoestima e seu lugar na universidade. Essa persistência das agressões verbais e psicológicas foi se tornando insustentável.

Em um dos relatos mais impactantes, Priscila contou sobre um momento em que estudavam na biblioteca. A colega a atingiu no braço com uma chave, causando um machucado considerável. A agressora só pediu desculpas após muita insistência da vítima, e o fez de maneira debochada, demonstrando falta de empatia e respeito.

Outro comentário chocante, segundo a estudante, foi quando a colega sugeriu que Priscila se casaria com um “artista famoso preto, porque ele também era cotista”. Essa fala, carregada de estereótipos e preconceito, reforça a conotação negativa e objetificante da condição de cotista, associando-a a um destino pré-determinado e racializado, e configura um claro exemplo de racismo velado.

A resposta da USP e o profundo impacto do racismo na saúde mental de Priscila

A Universidade de São Paulo, por meio de nota enviada à EPTV, informou que, com base no relato formalizado de Priscila, o caso foi encaminhado para apuração. As instâncias responsáveis, a Comissão de Direitos Humanos (CDH) e a Comissão de Inclusão e Pertencimento (PRIP), estão conduzindo a investigação, buscando esclarecer os fatos e tomar as medidas cabíveis. A USP garantiu que “eventuais responsáveis serão submetidos às medidas administrativas e legais cabíveis, conforme a legislação vigente e as normas da Universidade de São Paulo”.

No entanto, Priscila destaca que buscou essas comissões e a Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento antes mesmo da repercussão do caso nas redes sociais. A estudante afirma que a PRIP abriu o processo administrativo para investigar as denúncias somente na segunda-feira, dia 8 de abril, após o relato da cientista social Jéssica Machado ter viralizado, o que levanta questionamentos sobre a celeridade inicial da instituição em casos de racismo.

O impacto das agressões foi profundo na vida de Priscila, que confessa ter demorado a perceber que os episódios se tratavam de racismo. “Dava pra ver que eu era a única a ser tratada assim. Ela sempre me desmerecia muito, eu sentia isso e, com o tempo, isso foi me consumindo. Mas eu não tinha ideia do que ela estava fazendo. Foi uma analogia que eu não tinha feito na hora, não tinha levado para esse lado”, explicou a estudante, sobre a dificuldade de identificar a natureza da violência.

Um episódio em particular, durante uma prova, foi o ponto de ruptura. Quando Priscila pediu para fazer dupla com a colega, ouviu a resposta fria: “não vou te carregar, não vou te carregar”. Depois disso, Priscila não voltou mais para a faculdade no primeiro semestre. Ela tentou retomar os estudos no segundo semestre, mas o peso do racismo e da depressão, que se intensificou, a fez desistir novamente. “Fiquei um mês de cama. Já tinha depressão, só que se intensificou”, revelou, com a intenção de só retomar os estudos no próximo ano, quando o caso estiver resolvido e ela puder se sentir segura na USP Ribeirão.

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