Da juventude marcada por regras rígidas à celebração da autonomia, a jornada de Rosângela e Maria Perpétua revela as profundas transformações na vida das mulheres.
Em um passado não tão distante, a vida de muitas mulheres era ditada por um conjunto de normas e expectativas sociais que limitavam severamente suas escolhas e sua liberdade feminina. A expressão “as decisões não eram nossas” era uma realidade para muitas delas.
Desde a forma de se vestir até as aspirações profissionais e matrimoniais, tudo parecia pré-determinado. Essa realidade, contada por quem a viveu, mostra um cenário onde a autonomia feminina era um conceito distante e muitas vezes inatingível.
As histórias de Rosângela Maria e Maria Perpétua, compartilhadas em reportagem do g1, trazem à tona essas memórias, destacando a coragem e a resiliência de quem ousou desafiar o status quo e pavimentar o caminho para as gerações futuras.
A Luta Contra o Roteiro Pré-Definido: Rosângela Maria e a Busca por Conhecimento
Nascida em 1958, Rosângela Maria recorda uma adolescência sob o crivo de regras rígidas. “Na minha adolescência, tudo era diferente. Normas e valores tradicionais tinham que ser respeitados, como vestuário, namoro e horários”, conta ela, lembrando que até a interação entre meninos e meninas era restrita.
A sociedade da época esperava que as mulheres se dedicassem ao lar e ao casamento, com poucas opções profissionais, como secretária ou empregada doméstica. Contudo, Rosângela recusava essa ideia. “Eu não aceitava a ideia de ser só ‘do lar’”, afirma, em uma atitude que já demonstrava sua busca por mais.
Desde cedo, ela buscou seu próprio caminho, trabalhando quebrando britas e vendendo verduras para financiar seus estudos. Em um período em que o acesso ao ensino superior era um privilégio para poucos, e ainda mais restrito para as mulheres, Rosângela formou-se em Magistério e, mais tarde, em Letras.
Hoje, aos 67 anos, ela continua sua busca por conhecimento, cursando enfermagem na UFSJ, em Divinópolis. Sua trajetória é um exemplo vivo da transformação feminina no Brasil, mostrando que é sempre tempo para novas conquistas. “Ao contrário de muitas amigas que enterraram seus sonhos, meu esposo sempre me apoiou”, celebra Rosângela, ressaltando: “Lugar de mulher é onde ela quiser”.
Essa mudança é evidente nos dados atuais. Conforme o Censo da Educação Superior de 2023, as mulheres representam a maioria nas universidades brasileiras, com 59,1% das matrículas, um contraste marcante com a juventude de Rosângela.
Trabalho Braçal e Escolhas Limitadas: A Realidade de Maria Perpétua
Para Maria Perpétua, nascida em 1943, as limitações eram ainda mais severas. Sua vida era marcada pelo intenso trabalho braçal na roça e pelas exigências domésticas. “Eu ajudava na roça, plantava e colhia o dia todo. O trabalho doméstico também era intenso”, relata.
As opções para as mulheres se resumiam a atividades como costura, pintura e crochê. A autonomia era quase inexistente, estendendo-se até mesmo às vestimentas, que exigiam saias, vestidos sem decote e, por vezes, véus para cobrir a cabeça, refletindo as regras de outras décadas.
A educação era secundária, e o ensino superior, um sonho distante. “As decisões não eram nossas, eram os pais que decidiam”, revela Maria Perpétua. Ela própria só conseguiu cursar até o ginásio, a quarta série da época, enquanto muitas outras nem isso alcançavam, dada a prioridade ao lar e ao casamento.
O casamento era quase uma imposição social. “As mulheres eram quase obrigadas a se casar para não serem chamadas de ‘sobrantes’. Os pais escolhiam os parceiros”, descreve Maria, evidenciando a falta de liberdade de escolha e a pressão para cumprir um papel social.
Maria Perpétua reconhece as inegáveis mudanças na vida das mulheres, que hoje têm mais voz e vez. Contudo, ela também pondera sobre os desafios atuais. “As mulheres têm mais voz e vez, mas ainda sofrem preconceitos e julgamentos, principalmente quando querem se sobressair”, reflete, com a sabedoria de sua experiência.
Apesar dos avanços na liberdade feminina, ela observa um aumento nas responsabilidades. “Mas hoje o trabalho dobrou para as mulheres. Não sei se isso foi bom ou ruim, porque ganharam liberdade, mas também mais responsabilidades”, finaliza Maria, com uma reflexão profunda sobre o impacto dessas transformações na vida contemporânea das mulheres.