Dona Beja: a cortesã que desafiou costumes no Brasil Império e se tornou um símbolo de liberdade

De luxuosas festas em Araxá à devoção religiosa em Estrela do Sul, a história de Anna Jacintha de São José, a icônica Dona Beja

No século XIX, em Minas Gerais, uma mulher de personalidade forte e à frente de seu tempo emergiu como um verdadeiro mito. Anna Jacintha de São José, mais conhecida como Dona Beja, não apenas viveu intensamente, mas também desafiou as rígidas convenções morais de sua época.

Sua trajetória foi marcada por luxo, paixões intensas e um poder social incomum para uma mulher do período imperial, consolidando-a como uma figura central em Araxá. Contudo, a vida de Dona Beja reservava uma surpreendente reviravolta.

Ela transformou-se de cortesã influente em uma mulher dedicada à família e à fé, em uma mudança de vida que ecoa até hoje, conforme informações divulgadas pelo g1.

A ascensão da cortesã em Araxá e sua influência

Em Araxá, Dona Beja se consagrou como uma figura proeminente na vida social. Ela promovia saraus sofisticados, onde recebia autoridades e coronéis de diversas regiões, tecendo uma rede de influência e prestígio.

Apesar de ser mãe solteira, uma condição estigmatizada na época, ela conseguiu acumular vastas propriedades e terras em Minas Gerais. Entre seus bens, destacava-se a Chácara do Jatobá, popularmente conhecida como Chácara da Beja.

A historiadora Raquel Leão ressalta que Dona Beja era uma mulher antes de seu tempo. “Ela era mãe solteira, sozinha, não se limitou ao papel de lar imposto à ela. Ela foi muito atuante na política liberal, as reuniões eram feitas na chácara dela, coisa que não era muito normal para o momento. As mulheres do século XIX eram muito submissas, já Dona Beja, não”, explicou ao g1.

Maternidade e o reconhecimento inusitado

A vida pessoal de Dona Beja também foi pautada por escolhas ousadas. Após um período em Paracatu, para onde foi levada em 1814 pelo ouvidor Joaquim Inácio Silveira da Mota, ela teve duas filhas.

A primeira, Thereza Thomazia da Silva, teve uma paternidade surpreendente: foi reconhecida oficialmente pelo vigário Francisco José da Silva. O jornalista e escritor biográfico Pedro Divino Rosa confirmou que “Isso está comprovado. O padre assumiu a filha e tudo”, com o registro de legitimação preservado no Arquivo Público de Araxá.

Sua segunda filha, Joana de Deus de São José, era fruto de seu relacionamento com João Carneiro de Mendonça, um médico e filho de fidalgo. Joana, por sua vez, casou-se com Clementino Martins Borges, o primeiro agente executivo da cidade de Bagagem, ampliando ainda mais a influência da família de Dona Beja.

A reviravolta em Estrela do Sul: fé, família e diamantes

Aos 40 anos, Dona Beja tomou uma decisão que redefiniria completamente seu estilo de vida. Ela deixou Araxá e se mudou para a então cidade de Bagagem, hoje conhecida como Estrela do Sul, onde passaria os últimos 30 anos de sua vida.

A mudança foi motivada, em parte, pela descoberta de um diamante de mais de 250 quilates na região em 1853, o “Estrela do Sul”, considerado o quarto maior do mundo. “Em 1853, em razão da descoberta de diamantes grandes no município e familiares da sua filha, Thereza, estarem morando lá, eles convenceram Dona Beja a se mudar para Bagagem”, detalhou Pedro Divino Rosa.

Lá, ela se associou a um garimpo de diamantes chamado Califórnia, que desviava o leito do Rio Bagagem, e obteve grande sucesso. A influência de Dona Beja era tamanha que políticos se aproximavam dela, reconhecendo seu poder e sua capacidade financeira, inclusive na Revolução Liberal de 1852, onde “ela apoiou financeiramente, deu dinheiro aos políticos de Araxá que participaram”, segundo Pedro Rosa.

Contrariando a imagem de luxo e festas de Araxá, em Estrela do Sul, Dona Beja adotou uma vida mais discreta, dedicada à família e, sobretudo, à fé católica. Sua religiosidade era tão profunda que ela financiou a construção de uma ponte sobre o Rio Bagagem.

O objetivo era que pudesse acompanhar, da própria casa, a procissão de Nossa Senhora Mãe dos Homens, padroeira local. “Ela era devota da padroeira e mandou construir com recursos próprios a ponte sobre o rio, mas depois cobrou dos políticos, da administração local”, completou Pedro Divino Rosa.

Registros históricos indicam que, nos seus anos finais, a fortuna de Dona Beja já não era a mesma de outrora. Seu testamento revela uma mulher mais simples, mas profundamente ligada à religião e aos seus familiares, mostrando uma transformação genuína.

O legado eterno de Dona Beja: liberdade e reinvenção

Dona Beja faleceu em 20 de dezembro de 1873, devido a uma complicação renal, e foi enterrada em um antigo cemitério onde hoje se localiza a praça da matriz de Estrela do Sul. Sua certidão de óbito só foi emitida há dois anos, após autorização judicial.

Mesmo após sua morte, Anna Jacintha de São José transcendeu a história, tornando-se um poderoso mito cultural e um símbolo do feminino, associado à liberdade e à capacidade de desafiar as convenções sociais do Brasil Império.

Entre o brilho dos salões de Araxá e a tranquilidade de Estrela do Sul, a figura de Dona Beja permaneceu marcada por sua personalidade forte e sua notável capacidade de se reinventar. Sua imagem de mulher bela e sedutora atravessou gerações, inspirando romances e, atualmente, uma novela da HBO Max.

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