Especialistas alertam que o uso excessivo de ferramentas como o ChatGPT pode prejudicar a criatividade, o pensamento crítico e a memória, mas há estratégias para proteger suas habilidades cognitivas.
A inteligência artificial (IA) está cada vez mais presente em nosso dia a dia, transformando a forma como trabalhamos, aprendemos e interagimos com o mundo. No entanto, um questionamento crescente vem à tona: será que essa dependência da IA pode estar, de fato, enferrujando nosso cérebro?
Assim como o GPS alterou nosso senso de direção e os mecanismos de busca enfraqueceram a memória, cientistas agora alertam sobre os potenciais impactos da IA em habilidades que vão da criatividade ao pensamento crítico.
Estudos recentes sugerem que o uso excessivo de ferramentas de IA pode levar a prejuízos significativos. Conforme informações divulgadas pela BBC, pessoas que dependem demais do ChatGPT, por exemplo, podem enfrentar declínios na capacidade de atenção, no pensamento crítico e na memória.
O debate sobre os riscos da inteligência artificial para o cérebro
Ainda que a linha de pesquisa sobre os efeitos da IA no cérebro seja recente, as preocupações são palpáveis. Adam Greene, professor de neurociência da Universidade Georgetown, nos Estados Unidos, afirma que, de modo geral, sim, devemos nos preocupar. Ele explica que a IA assume tarefas que antes exigiam esforço mental.
“Há muitas evidências de que, se você deixa de exercitar determinados tipos de pensamento, sua capacidade de realizar esse tipo de raciocínio tende a se deteriorar”, destaca Greene. Essa analogia é comparável a deixar um robô levantar pesos na academia por você, o que não traria nenhum benefício muscular.
Por outro lado, Jared Benge, neuropsicólogo clínico da Universidade do Texas, argumenta que a questão é mais complexa. Para ele, a IA, por si só, não é boa nem ruim, e seus efeitos dependem do uso. Se a tecnologia aliviar a carga mental para permitir foco em tarefas mais importantes, pode até gerar benefícios cognitivos.
Benge participou de uma meta-análise com mais de 411 mil adultos que não encontrou evidências de “demência digital”, um termo que surgiu há 20 anos para descrever a deterioração da memória de curto prazo pelo excesso de tecnologia. Pelo contrário, o estudo sugeriu que o uso de tecnologia pode reduzir o risco de comprometimento cognitivo. No entanto, a IA pode ser o instrumento de terceirização cognitiva mais poderoso já criado, o que exige atenção.
Não confie cegamente nas respostas da IA
Um estudo recente revelou que usuários frequentes de IA tiveram desempenho pior em testes de pensamento crítico. A explicação para isso é a tendência de transferir parte do raciocínio para os sistemas automatizados. Pesquisadores da Universidade da Pensilvânia chamam esse fenômeno de “rendição cognitiva”, onde a confiança na IA supera o próprio julgamento, mesmo quando a ferramenta está errada.
Hank Lee, doutorando da Universidade Carnegie Mellon e coautor de um estudo da Microsoft Research, adverte que o risco é maior em áreas onde o usuário tem menos familiaridade. “Se o usuário não tem conhecimento suficiente para avaliar se a resposta é boa ou não, aí está o perigo”, explica Lee.
Para evitar esse problema, uma estratégia é formular sua própria visão inicial sobre um assunto e usar a IA para testar ou confrontar esse raciocínio. Dessa forma, a IA atua como um instrumento para colocar o pensamento à prova, e não para substituí-lo.
A importância do esforço mental e da criatividade original
Quando se trata de reter informações, a IA também pode apresentar desafios. Barbara Oakley, professora emérita de engenharia da Universidade de Oakland, ressalta que é comum acreditar que a informação já foi armazenada na memória de longo prazo apenas por estar diante dela, o que nem sempre acontece.
Pesquisas iniciais indicam que a IA pode afetar a capacidade de retenção. Um levantamento com 494 estudantes mostrou que usuários mais frequentes do ChatGPT relataram mais episódios de perda de memória. Para combater isso, especialistas recomendam engajar-se ativamente com o conteúdo. Fazer anotações, de preferência à mão, ou pedir à IA para fazer perguntas e criar flashcards, pode melhorar a retenção.
No campo da criatividade, a IA é eficiente em gerar ideias, mas isso pode ser um problema. Estudos indicam que pessoas que usam IA em tarefas criativas tendem a produzir ideias mais previsíveis e menos originais, o que enfraquece a capacidade criativa. Adam Greene explica que a criatividade surge de conexões inesperadas do cérebro. Se essa tarefa é delegada à IA, parte desse exercício mental se perde.
Para manter o “músculo criativo” ativo, a sugestão é dedicar mais tempo à página em branco. Coloque suas próprias ideias no papel primeiro, mesmo que incompletas ou confusas. O cérebro precisa fazer suas próprias conexões, usando experiências, memórias e conhecimentos pessoais para produzir algo singular. A IA deve entrar em cena apenas para desenvolver, questionar ou aprimorar as ideias já formuladas.
Como manter o foco em um mundo digital
A tecnologia, com seu excesso de estímulos, pode dificultar a manutenção do foco. A IA intensifica esse problema, oferecendo respostas instantâneas e inúmeras maneiras de escapar do esforço e do desconforto. No entanto, a lógica para manter a atenção é a mesma das outras recomendações: escolha conscientemente o caminho mais lento.
Em vez de pedir um resumo imediato ao ChatGPT, tente ler o artigo longo. Permita-se sentir tédio e enfrente problemas difíceis antes de recorrer a um robô. O desconforto faz parte do processo de aprendizado e é essencial para o desenvolvimento de um pensamento mais profundo.
Adam Greene enfatiza que o cérebro humano funciona de maneira fundamentalmente diferente da IA, sendo capaz de criar conexões pessoais, inesperadas e genuinamente originais. Essa singularidade e diversidade das ideias humanas serão de grande valor nos próximos anos, e a necessidade de “pensar além dos robôs” pode se tornar uma forma de adaptação social.
Como lembra Jared Benge, a humanidade sempre se adaptou à tecnologia. O cérebro humano é resiliente e se ajusta constantemente. As ferramentas mudam, mas o desejo humano de pensar, criar e compreender o mundo por conta própria é algo muito mais difícil de automatizar.