De construtor de ferrovias globais a astrônomo em Fortaleza, conheça a trajetória épica de Francis Hull e seu impacto duradouro na capital cearense.
Quem transita pela movimentada Avenida Mister Hull, uma das principais vias de Fortaleza, talvez não imagine a rica história por trás do nome que a batiza. Francis Reginald Hull, um engenheiro britânico com uma vida digna de romance, deixou um legado significativo no Ceará e em diversas partes do mundo.
Sua jornada foi marcada por aventuras, contribuições científicas e um profundo amor pelo estado, solidificando sua memória na capital cearense. A história de Mister Hull é um convite a explorar um passado de inovações e descobertas.
Conforme informações divulgadas pelo g1 Ceará, a vida de Francis Hull se entrelaça com o desenvolvimento de infraestruturas e estudos climáticos, revelando a complexidade e a paixão de um homem à frente de seu tempo.
Um Engenheiro de Visão Global e Missões Aventureiras
Nascido em Wimbledon, um distrito de Londres, em 1872, Francis Reginald Hull iniciou sua carreira de engenheiro muito cedo. Aos 20 anos, sua primeira missão no Brasil foi como engenheiro-assistente na São Paulo Railway, onde realizou levantamentos topográficos e trabalhou no ramal ferroviário da Serra do Mar.
Após essa experiência, ele retornou à Inglaterra para aprofundar seus estudos em astronomia e agrimensura, conhecimentos que seriam cruciais em sua vida. Sua jornada profissional o levou a diversas missões ao redor do globo, demonstrando sua versatilidade e espírito aventureiro.
Entre suas notáveis missões, Mister Hull foi encarregado de perfurar minas de ouro na África do Sul e supervisionou serviços de abastecimento de água e construção de represas na Grã-Bretanha. Sua atuação não se limitou a obras civis, estendendo-se a cenários de guerra.
Durante a Primeira Guerra Mundial, em 1915, ele se uniu aos Engenheiros Reais das Forças Armadas Britânicas, servindo no território do atual Iraque. Lá, assumiu o cargo de Governador da Mesopotâmia, uma posição de grande responsabilidade e complexidade.
Posteriormente, Francis Hull foi nomeado consultor militar para assuntos ferroviários em uma missão britânica na Rússia, recebendo condecorações do czar Nicolau II e do rei George V da Inglaterra. Essas experiências moldaram o engenheiro, preparando-o para os desafios que encontraria no Brasil.
A Chegada ao Ceará e o Legado Ferroviário
Em 1913, aos 41 anos, Mister Hull chegou ao Ceará, um marco importante em sua trajetória. Ele foi nomeado superintendente-geral da Brazil North Eastern Railway, empresa responsável pelas estratégicas estradas de ferro de Sobral e Baturité.
A implantação dessas ferrovias, no final do século XIX, teve um impacto transformador na economia e na vida social do estado. Os trens interligavam cidades, facilitando o fluxo de mercadorias e informações entre locais distantes, contribuindo para o desenvolvimento regional.
Seu retorno ao Brasil, em 1921, o levou à Bahia, onde atuou como vice-cônsul do Reino Unido em Ilhéus. Nesse período, Mr. Hull foi o responsável pela construção da ferrovia que conectou Ilhéus a Vitória da Conquista, uma obra vital para o escoamento do cacau.
A passagem do engenheiro pela Bahia rendeu até mesmo uma inspiração literária. Segundo seu filho, Julian Hull, o escritor Jorge Amado se baseou em Mister Hull para criar um dos personagens do romance “São Jorge de Ilhéus”, publicado em 1944, citando os engenheiros ingleses das ferrovias da região.
O Astrônomo Amador e os Estudos sobre as Secas de Fortaleza
Em 1933, aos 61 anos, Francis Hull retornou ao Ceará para se fixar definitivamente, dedicando-se exclusivamente aos estudos sobre meteorologia e astronomia. Neste período, ele também exerceu o cargo de vice-cônsul no estado, reforçando seus laços com a comunidade.
Conforme Angela Barros Leal, jornalista e associada efetiva do Instituto do Ceará, o engenheiro montou um observatório em sua própria casa, na Praia de Iracema, para contemplar os astros no céu de Fortaleza. A residência, um sobrado em frente à ladeira da Prainha, oferecia uma vista privilegiada da Praça do Cristo Redentor.
Hoje, o local onde ficava o sobrado de Mister Hull está próximo à entrada do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. Após sua morte, a casa foi desapropriada para as obras do equipamento cultural, marcando o fim de um capítulo de sua vida na cidade.
O interesse de Francis Hull pelo ciclo das secas no Ceará começou desde sua primeira temporada no estado. Ao se estabelecer em Fortaleza pela segunda vez, ele intensificou suas investigações, buscando prever os períodos de estiagem.
Angela Barros Leal destacou ao g1 que “ele era um grande interessado em Fortaleza e no Ceará. Em termos de legado, o que ele fez muito foi essa pesquisa sobre qual a possibilidade de você prever a chegada das secas a partir de fatores climatológicos que ajudassem nisso, para não ficar na insegurança sobre ter inverno ou não”.
Observando os grandes períodos de estiagem, Mister Hull tentou encontrar uma relação entre os anos de seca no Ceará e o ciclo das manchas solares, divulgando seus achados em conferências e eventos científicos. Ele se baseava em conhecimentos adquiridos no Real Observatório de Greenwich, no Reino Unido.
Seu filho, Julian Hull, professor no Colégio Militar de Fortaleza, também defendeu a relação entre as manchas solares e o ciclo das secas. Contudo, é importante notar que este método de observação não é utilizado na meteorologia atual para o monitoramento das secas.
Um Último Desejo e a Imortalização na Avenida
A paixão de Mister Hull pelo Ceará foi tão intensa que se manifestou em seu testamento. Ele pediu que seu corpo fosse envolvido na bandeira da Inglaterra, colocado em uma jangada e lançado ao mar a uma distância de três milhas da costa.
Julian Hull, em entrevista duas décadas após a morte do pai, revelou a frustração desse desejo: “No episódio da jangada, seria do amor que ele tinha ao Ceará, mas, infelizmente na época, a polícia não consentiu num enterro dessa maneira, e ele está enterrado no cemitério São João Batista”.
Assim, Francis Hull foi sepultado no cemitério São João Batista, em março de 1951, aos 78 anos, vestido com a farda do Exército Britânico e envolto na bandeira de sua terra natal. Sua contribuição para o Ceará, no entanto, seria eternizada de outra forma.
A Avenida Mister Hull, com cerca de seis quilômetros de extensão, inicia-se próximo às rodovias estaduais CE-085 e CE-020 e termina na movimentada Avenida Bezerra de Menezes, interligando Fortaleza e Caucaia. Ela atravessa bairros como Antônio Bezerra, Padre Andrade, Pici e Presidente Kennedy, na Regional 3 de Fortaleza.
É interessante notar que, apesar de a avenida levar seu nome e de Mister Hull ter morado na Praia de Iracema, não há uma relação geográfica direta entre sua residência e a localização da via. Sua homenagem é um reconhecimento ao legado de um engenheiro que dedicou parte de sua vida a desvendar os mistérios do céu e da terra cearense.