A nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, apelidada de ‘Doutrina Donroe’, prioriza frear a imigração, combater o narcotráfico e fortalecer aliados na América Latina.
A América Latina emergiu como um ponto focal crucial na mais recente Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos, documento divulgado pela Casa Branca. Este plano reflete a visão de mundo da administração do ex-presidente Donald Trump, sinalizando uma postura mais assertiva e intervencionista na região.
As diretrizes delineiam um interesse renovado de Washington em temas como a contenção da imigração ilegal, o combate ao avanço do narcotráfico e a consolidação de relações com parceiros comerciais e aliados ideológicos. É uma abordagem que busca reafirmar a influência americana no hemisfério ocidental.
Essa nova estratégia, que tem sido informalmente chamada de ‘Doutrina Donroe’, em alusão ao ex-presidente James Monroe e ao atual Donald Trump, sugere uma retomada de princípios históricos na política externa dos EUA para o continente, conforme informação divulgada pela BBC.
A Reafirmação da Doutrina Monroe na Era Trump
A Estratégia de Segurança Nacional americana reafirma a decisão dos Estados Unidos de ampliar sua presença militar e influência na região. Publicada em 4 de dezembro, ela reflete a visão do governo Trump para a América Latina.
Para alcançar seus objetivos, o governo propõe a retomada da política externa de James Monroe, cunhada em 1823, com o lema “A América para os Americanos”. Essa doutrina original visava proteger a região contra o avanço de potências de outros continentes.
O documento da Casa Branca declara: “Depois de anos de abandono, os Estados Unidos reafirmarão e aplicarão a Doutrina Monroe para restaurar a proeminência americana no hemisfério ocidental”. Essa abordagem ganhou o apelido de “Doutrina Donroe”, uma combinação dos nomes Donald e Monroe, que surgiu no jornal New York Post e foi rapidamente adotada por analistas.
Exemplos práticos dessa nova postura já são visíveis, como o bloqueio “total e completo” de navios petrolíferos sancionados na Venezuela e o resgate financeiro incomum à Argentina. Estas ações demonstram a relevância da América Latina para o presidente Trump e sua estratégia de segurança.
O presidente Trump, na carta que abre o documento de 33 páginas, afirma: “Meu governo agiu com urgência e velocidade histórica para restaurar a força dos Estados Unidos no país e no exterior”. Essa visão se traduz na crença de que a proeminência no hemisfério ocidental é crucial para a segurança e prosperidade global dos EUA.
Os Interesses Chave de Trump na Região
Para Trump, a América Latina é percebida como a origem de muitos desafios enfrentados pelos Estados Unidos, mas também como parte da solução. O documento aponta a “migração ilegal e desestabilizadora” como um dos principais problemas, destacando que metade dos imigrantes nos EUA vem do continente, especialmente do México.
Will Freeman, pesquisador de Estudos Latino-Americanos do Conselho de Relações Exteriores, ressalta que a região “é a região do mundo que mais interessa para seus objetivos de política interna”. Isso evidencia a conexão direta entre a política externa de Trump e suas promessas internas de segurança.
Outro ponto crítico é o narcotráfico. Quase toda a cocaína consumida nos Estados Unidos provém de três países da região: Colômbia, Peru e Bolívia. A nova arquitetura de segurança nacional considera a América Latina como “parte da sua fronteira de segurança interna”, segundo o professor Bernabé Malacalza, da Universidade Torcuato Di Tella.
Malacalza enfatiza que “a América Latina passou a ser prioridade para os Estados Unidos”, adquirindo uma posição que antes não tinha devido ao protagonismo da segurança do hemisfério. A estratégia também visa limitar “incursões estrangeiras hostis”, uma clara referência à crescente influência da China na região.
No campo comercial, a política de “America First” de Trump busca melhorar acordos com parceiros regionais, defendendo o uso de “alíquotas e acordos comerciais recíprocos como ferramentas poderosas”. A ideia é consolidar o nearshoring, a estratégia de transferir parte da produção para países próximos dos consumidores americanos.
Essa reconfiguração das cadeias de valor, conforme Malacalza, visa não apenas o crescimento das empresas americanas, mas também o fortalecimento das economias aliadas, tornando o hemisfério ocidental “um mercado cada vez mais atraente para o comércio e os investimentos dos Estados Unidos”.
Represálias e Recompensas: A Nova Abordagem
A presença do mastodôntico porta-aviões USS Gerald R. Ford no Caribe, desde novembro, serve como um símbolo da nova postura de segurança dos Estados Unidos. A estratégia prevê uma “presença militar mais adequada” e “destacamentos específicos” para controle de fronteiras terrestres e rotas marítimas.
A Casa Branca não descarta “o uso de força letal para substituir a fracassada estratégia baseada apenas na aplicação da lei das últimas décadas”, reafirmando que “a força é o melhor elemento de dissuasão”. Isso evoca o lema “paz pela força” do ex-presidente Ronald Reagan.
Contudo, para Bernabé Malacalza, essa política de segurança em relação à América Latina “não configura uma arquitetura regional ou hemisférica, mas sim procura fazer com que os países se alinhem aos Estados Unidos e, em última instância, a Trump”.
Em contrapartida, os Estados Unidos também oferecem recompensas a seus aliados. O documento destaca: “Recompensaremos e incentivaremos os governos, partidos políticos e movimentos da região que se alinharem amplamente aos nossos princípios e estratégia”.
Essa política foi exemplificada pelo resgate de US$ 20 bilhões para a Argentina e acordos de redução de alíquotas com Equador, El Salvador e Guatemala. A intenção é apoiar líderes que promovam estabilidade, ajudem a frear a migração ilegal e neutralizem cartéis.
A Doutrina Donroe: Uma Declaração de Princípios?
Apesar de toda a retórica e das ações tomadas, alguns analistas questionam a consistência da Doutrina Donroe como um plano estratégico coeso. Will Freeman, por exemplo, sugere que “Trump não segue uma política externa suficientemente consistente para ser chamada de doutrina”.
Para Freeman, a abordagem atual é mais uma “declaração de princípios” do que um plano detalhado. Ele observa que não há declarações que ajudem a entender como as medidas pontuais se conectam com objetivos mais amplos e ambiciosos do governo Trump para a América Latina.
Em última análise, a visão predominante entre os especialistas consultados pela BBC é que a Doutrina Donroe enxerga a América Latina principalmente como uma fonte de ameaças, e não de oportunidades. “Eles se preocupam muito mais em evitar que as ameaças perigosas da América Latina cheguem aos Estados Unidos, segundo eles, do que em aproveitar as oportunidades oferecidas pela região”, resume Freeman.