Ataque em Mongbwalu causa pânico e fuga de pacientes em meio ao avanço da variante Bundibugyo, que preocupa autoridades e OMS na República Democrática do Congo.
Uma tenda utilizada para o tratamento de pacientes com Ebola foi incendiada pela segunda vez em menos de uma semana no leste da República Democrática do Congo. O incidente, ocorrido na cidade de Mongbwalu, resultou na fuga de 18 pessoas com suspeita de infecção, intensificando os temores de uma propagação ainda maior da doença.
O ataque acontece em um cenário já crítico, com o avanço de um surto da variante Bundibugyo, uma forma rara do vírus para a qual, atualmente, não há vacina aprovada. A situação gera grande preocupação entre as autoridades de saúde e a comunidade internacional.
A fuga dos casos suspeitos para a comunidade, conforme informações divulgadas pela Associated Press e reportadas pelo G1, coloca em risco os esforços de contenção e levanta o alerta para um possível aumento da transmissão do Ebola no Congo.
Ataques Aumentam Tensão Local
O incêndio da tenda na noite de sexta-feira (22) em Mongbwalu, epicentro do surto, foi perpetrado por homens não identificados. A estrutura, montada pela organização humanitária Médicos Sem Fronteiras, era crucial para o atendimento de casos suspeitos e confirmados da doença.
Richard Lokudi, diretor do Hospital Geral de Referência de Mongbwalu, condenou veementemente o ato. Segundo ele, o ataque provocou pânico entre os profissionais de saúde e, mais grave, levou à fuga dos pacientes suspeitos para o convívio comunitário.
Este episódio lamentável ocorre apenas um dia após outro centro de tratamento, na cidade de Rwampara, também ter sido incendiado. Relatos locais indicam que este ataque anterior se deu após familiares serem impedidos de recuperar o corpo de um morador falecido pela doença.
Corpos de vítimas de Ebola são altamente contagiosos, especialmente durante rituais funerários tradicionais. Por isso, autoridades sanitárias frequentemente restringem velórios e realizam sepultamentos controlados, uma medida que, embora essencial para a saúde pública, gera frequente tensão com as comunidades locais na República Democrática do Congo.
Fuga de Suspeitos e Riscos de Transmissão
A fuga dos 18 pacientes com suspeita de Ebola é um dos maiores desafios para a contenção do surto. Essas pessoas, ao se misturarem com a população, podem disseminar o vírus de forma descontrolada, dificultando o rastreamento de contatos e a interrupção das cadeias de transmissão.
No sábado (23), enterros de pacientes em Rwampara ocorreram sob forte esquema de segurança. David Basima, líder da equipe da Cruz Vermelha responsável pelos sepultamentos, relatou a resistência de jovens e da comunidade, exigindo apoio das autoridades para garantir a segurança das operações.
A desinfecção de áreas públicas, como mercados, também tem sido intensificada na província de Ituri, onde os trabalhadores de saneamento do governo de Bunia pulverizam desinfetante. Essas ações visam mitigar a proliferação do vírus e proteger a população.
OMS Eleva Nível de Risco e Alerta para Variante Rara
Diante da escalada do surto, a Organização Mundial da Saúde (OMS) elevou o nível de risco no Congo de “alto” para “muito alto”. Apesar disso, a OMS considera baixo o risco de disseminação global da doença, concentrando os esforços na contenção local.
O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, confirmou 82 casos e sete mortes no país. Ele alertou, contudo, que o número real de infectados pode ser significativamente maior, devido à dificuldade de identificação inicial da variante.
A variante Bundibugyo é uma das formas mais raras do Ebola e, ao contrário da variante Zaire, que causou surtos anteriores e para a qual existe vacina, ainda não possui um imunizante aprovado. Isso torna o controle do atual surto ainda mais complexo e desafiador.
A dificuldade em identificar a variante Bundibugyo contribuiu para a sua circulação por semanas sem detecção. Os primeiros pacientes testavam negativo para a cepa mais comum do Ebola, o que atrasou a confirmação do surto e a implementação de medidas específicas.
Desafios na Contenção e Falta de Confiança
As autoridades da província de Ituri, na sexta-feira (22), proibiram velórios e reuniões com mais de 50 pessoas, numa tentativa de conter o avanço do vírus. Tais medidas, embora necessárias, muitas vezes colidem com as práticas culturais locais, gerando atritos.
Jean Kaseya, diretora-geral do Centro Africano de Controle e Prevenção de Doenças, enfatizou que a resposta ao surto de Ebola no Congo depende não apenas de medidas médicas. É fundamental reconstruir a confiança entre as autoridades e as comunidades locais, um fator crucial para a adesão às diretrizes de saúde.
A Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho informou que três voluntários morreram após contrair o vírus em Mongbwalu em março. Esse dado sugere que o vírus pode ter começado a circular semanas antes da primeira morte oficialmente reconhecida, registrada no fim de abril na cidade de Bunia.
Atualmente, as autoridades monitoram cerca de 750 casos suspeitos e 177 mortes suspeitas, aguardando confirmação laboratorial. A situação exige uma resposta coordenada e o engajamento da comunidade para evitar uma crise de saúde ainda maior na República Democrática do Congo.