O conflito entre a Anthropic e o Departamento de Defesa norte-americano expõe a urgente necessidade de governança sobre o uso da inteligência artificial militar.
Uma disputa sem precedentes entre uma empresa de inteligência artificial do Vale do Silício e o Pentágono dos Estados Unidos está sacudindo o cenário global, levantando questões cruciais sobre o futuro da guerra e a ética no desenvolvimento tecnológico. O confronto, que envolveu a recusa da Anthropic em ceder controle irrestrito sobre sua tecnologia, ressalta a falta de regulamentação clara para o uso da IA em operações militares.
Este embate vai além de uma simples briga corporativa, marcando a primeira vez que uma companhia de IA se opõe a um aparato militar, defendendo limites éticos para sua tecnologia. A situação levanta preocupações profundas sobre a delegação de decisões letais a máquinas e quem realmente detém o poder sobre como a inteligência artificial é empregada.
Especialistas da Universidade de Oxford alertam que este episódio “revela lacunas de governança antigas na integração da IA em operações militares”, um vácuo que afeta o mundo todo, conforme informações divulgadas pelo G1.
Contexto da Disputa: A Operação na Venezuela e a Recusa da Anthropic
O estopim para a controvérsia foi o uso da ferramenta Claude, da Anthropic, durante uma operação militar que culminou na captura do então presidente venezuelano Nicolás Maduro, em 3 de janeiro. Essa informação, divulgada independentemente pelo Wall Street Journal e Axios, foi posteriormente confirmada pela revista Time, que publicou um extenso perfil da empresa.
Após a operação, um executivo da Anthropic contatou a Palantir, intermediária tecnológica entre o Vale do Silício e o governo, questionando se o software havia sido utilizado. Essa pergunta acendeu um alerta em Washington, gerando preocupação sobre a possibilidade de a Anthropic “desligar seu modelo no meio de uma operação”, colocando vidas em risco, segundo Emil Michael, Subsecretário de Defesa e Diretor de Tecnologia do Pentágono.
A Anthropic, no entanto, contesta essa interpretação, afirmando que a pergunta era rotineira e que nunca tentou limitar o uso do Pentágono. Contudo, a tensão escalou rapidamente. O Pentágono exigiu acesso irrestrito à tecnologia para “todos os usos legais”, e a empresa recusou.
Pete Hegseth, Secretário de Defesa de Trump, classificou a Anthropic como um “risco para a cadeia de suprimentos”, um rótulo geralmente reservado a empresas ligadas a rivais estrangeiros. Em resposta, a Anthropic processou o Pentágono por exceder sua autoridade e violar salvaguardas éticas, com especialistas jurídicos acreditando em suas chances de vitória.
O presidente Donald Trump, por sua vez, ordenou que todas as agências federais parassem de usar a tecnologia da Anthropic e publicou uma mensagem no Truth Social, em letras maiúsculas, criticando uma “empresa progressista (‘woke’) e radical de esquerda” por tentar ditar as ações militares dos EUA.
Linhas Vermelhas Éticas: O DNA da Anthropic e o Desafio ao Poder Militar
A Anthropic, fundada em 2021 por ex-pesquisadores da OpenAI, nasceu da premissa de que a inteligência artificial representa um dos maiores riscos existenciais para a humanidade. Por isso, seus desenvolvedores são comprometidos em criá-la com segurança.
Em julho de 2025, a empresa assinou um contrato de US$ 200 milhões com o Departamento de Defesa. O CEO da Anthropic, Dario Amodei, justificou o acordo em janeiro deste ano, afirmando que a empresa apoiava as forças militares e de inteligência dos EUA, pois “a única maneira de responder a ameaças autocráticas é igualá-las e superá-las militarmente”.
No entanto, o contrato estabelecia duas “linhas vermelhas” inegociáveis: o Claude não poderia ser usado para vigilância doméstica em massa ou para armas totalmente autônomas. Esses limites são baseados em um documento interno da empresa que visa “prevenir catástrofes em larga escala”, incluindo a possibilidade de a IA ser usada para “tomar o poder de forma ilegítima e não colaborativa”.
Amodei também argumentou que “os sistemas de IA de última geração simplesmente não são confiáveis o suficiente para alimentar armas totalmente autônomas”. O conceito de “autonomia” aqui se refere à capacidade de um sistema atingir objetivos com supervisão humana mínima, não de decidir por conta própria a quem matar.
A preocupação com o “viés de automação” é real. Especialistas alertam que, em situações tensas, humanos tendem a confiar excessivamente nas recomendações da máquina, corroendo o julgamento humano. Há precedentes documentados de prisões de pessoas erradas nos EUA devido a sistemas de reconhecimento facial.
A outra “linha vermelha” que irritou o governo Trump, a vigilância em massa, é igualmente crítica. A Anthropic se opôs especificamente à vigilância em massa de cidadãos americanos, mas o princípio por trás de sua posição é mais amplo, ganhando urgência com os planos do governo de usar IA para apoiar operações da agência de imigração (ICE).
As “linhas vermelhas” da Anthropic são, por enquanto, um dos poucos mecanismos concretos de controle existentes. No entanto, sua eficácia é limitada pela ausência de um arcabouço legal e regulamentação internacional que as apoie.
O Vácuo Legal e a Lógica da Velocidade na Guerra com IA
A relutância do Departamento de Defesa em aceitar limites impostos por uma empresa privada é, para muitos, compreensível, dado que o uso de IA deveria ser regulamentado por leis aprovadas democraticamente. Contudo, o Legislativo ainda não aprovou tais leis.
A exigência do Pentágono por liberdade para usar o Claude para “todos os usos lícitos” parece razoável, até que se questione o que, de fato, é lícito nesse contexto. Não há uma definição consensual no direito internacional sobre o que constitui uma arma autônoma letal. O direito internacional humanitário, construído em torno de decisões humanas, não contempla sistemas que detectam, selecionam e eliminam alvos com mínima ou nenhuma intervenção humana direta.
Isso cria um “vácuo de responsabilidade”, onde as estruturas legais existentes não conseguem determinar quem é o responsável quando um sistema autônomo comete uma violação. Se um drone com IA matar civis, quem será responsabilizado? O programador? O comandante? A empresa? Na ausência de uma resposta clara, “uso lícito” significa o que cada Estado decide.
O debate sobre armas autônomas começou formalmente em 2013, mas, onze anos depois, resultou apenas em diretrizes voluntárias. Em 2024, o Ministro das Relações Exteriores da Áustria comparou a situação ao “momento Oppenheimer da nossa geração”, referindo-se à tomada de consciência do poder da bomba atômica.
A diferença, porém, é que os sistemas autônomos são baratos, produzidos em massa e difíceis de rastrear, tornando-os mais difíceis de controlar por meio de tratados. Embora a Assembleia Geral da ONU tenha criado um fórum para discutir o tema em 2024, com 166 votos a favor e apenas três contra (Rússia, Coreia do Norte e Belarus), ainda faltam um tratado vinculativo e mecanismos de aplicação.
Enquanto advogados e diplomatas debatem, engenheiros constroem. O que eles constroem já está sendo usado. O general americano Stanley McChrystal, ex-comandante das forças americanas e da Otan no Afeganistão, observou que a capacidade de ver, decidir e matar alguém do outro lado do mundo em minutos precisa ser atualizada, pois a questão agora é até que ponto estamos dispostos a delegar a decisão a uma máquina.
Essa transição já está sendo testada. Na Ucrânia, em dezembro de 2024, forças do país realizaram a primeira operação totalmente não tripulada perto de Kharkiv, com dezenas de veículos terrestres autônomos e drones atacando posições russas sem nenhum soldado em terra. A lógica tática é clara: os drones e veículos são programados para agir autonomamente mesmo sem supervisão humana, pois a comunicação será bloqueada. Drones já causam entre 70% e 80% das vítimas nessa guerra, segundo estimativas da inteligência europeia.
No Golfo, o almirante Brad Cooper, chefe do Comando Central dos EUA, reconheceu que a IA é fundamental para a identificação de alvos, permitindo que os EUA “analisem vastas quantidades de dados em segundos, para que nossos líderes possam tomar decisões mais inteligentes e mais rápidas do que o inimigo”.
Repercussões e o Apoio Inesperado à Posição Ética da Anthropic
O desfecho inicial da história foi paradoxal. Dario Amodei, CEO da Anthropic, declarou: “Não podemos, em sã consciência, atender ao pedido deles.” A Anthropic perdeu o contrato com o Pentágono.
Horas depois do anúncio, a rival OpenAI fechou um acordo com o Departamento de Defesa. No entanto, o que se seguiu foi inesperado. No dia seguinte ao anúncio do novo acordo pelo Pentágono, o aplicativo Claude, da Anthropic, ultrapassou o ChatGPT da OpenAI na App Store da Apple pela primeira vez.
Naquela semana, mais de um milhão de pessoas se cadastraram no Claude diariamente, impulsionando-o ao primeiro lugar em mais de 20 países. As vendas da empresa dispararam entre o público em geral, demonstrando um apoio popular à sua postura ética.
Além disso, duas coalizões de trabalhadores da Amazon, Google, Microsoft e OpenAI pediram publicamente que suas empresas seguissem o exemplo da Anthropic. Dezenas de cientistas e pesquisadores de empresas concorrentes assinaram um parecer jurídico em apoio à Anthropic. Um general aposentado da Força Aérea, que liderou o Projeto Maven, controverso programa de drones com IA, expressou simpatia pela posição da Anthropic, apesar de se esperar que apoiasse o Pentágono.
Talvez igualmente importante, a Anthropic consolidou o apoio de seus próprios engenheiros, alguns dos profissionais mais requisitados do Vale do Silício, em um mercado de talentos extremamente competitivo, onde contratos podem valer dezenas de milhões de dólares. A batalha da Anthropic contra o Pentágono é um marco, não apenas para o futuro da inteligência artificial, mas também para a forma como a sociedade e os governos lidarão com as implicações éticas e de segurança desta tecnologia transformadora.