Filme ‘Michael’ emociona com o Rei do Pop, mas ignora sua vida complexa: o que a cinebiografia de Michael Jackson deixou de fora

A produção, estrelada pelo sobrinho Jaafar Jackson, acerta ao celebrar os grandes hits e a ascensão dos Jackson 5, mas evita os desafios e as sombras do ícone.

A aguardada cinebiografia ‘Michael’, que chega aos cinemas, promete levar os fãs a uma jornada emocionante pelo universo musical do Rei do Pop. Com a interpretação de seu sobrinho, Jaafar Jackson, o filme é elogiado por suas cenas de palco vibrantes e pela energia contagiante dos sucessos dos anos 1980.

No entanto, a produção dirigida por Antoine Fuqua, embora acerte no espetáculo visual e sonoro, tem sido alvo de críticas por sua abordagem superficial da vida pessoal do artista, deixando de lado a complexidade e as múltiplas camadas que definiram Michael Jackson.

Essa visão mais amena e focada apenas no brilho dos palcos, sem aprofundar nas sombras do artista, levanta questionamentos sobre a profundidade da narrativa, conforme apontado pelo g1 em sua análise.

O Brilho Musical e a Atuação de Jaafar Jackson

Um dos maiores acertos de ‘Michael’ é a forma como a produção retrata o lado artístico de Michael Jackson. As cenas musicais são construídas com emoção e dinamismo, transportando o espectador para a efervescência dos shows e do processo criativo do astro.

A ascensão do Jackson 5, desde a infância humilde até o sucesso estrondoso com a Motown em 1968, é contada de maneira rápida, mas eficaz. Momentos como a criação de ‘Off The Wall’, embalada por ‘Don’t Stop Til You Get Enough’, e as referências para ‘Thriller’ são pontos altos.

A escolha de Jaafar Jackson para interpretar seu tio na fase adulta é um grande trunfo. Com uma caracterização impressionante, o sobrinho do Rei do Pop entrega uma performance competente, especialmente considerando sua estreia como ator, capturando a essência performática de Michael.

A Vida Pessoal: Pontos Cegos e Simplificações

Apesar do brilho musical, o filme ‘Michael’ é criticado por ficar aquém da complexidade do ser humano Michael Jackson. A imprensa especializada havia indicado que casos de abusos sexuais seriam abordados, mas, por questões legais com os acusadores, essas menções foram retiradas da obra.

A narrativa, que se passa entre a infância e o final dos anos 1980, evita os períodos mais controversos. Contudo, situações como o ‘desaparecimento’ de Janet Jackson e a pouca atenção dada ao produtor Quincy Jones privam o público de um entendimento mais completo da história.

Com o espólio do cantor atuando na produção executiva, Michael Jackson é retratado como um artista que não tinha forças para quebrar contratos ou confrontar seu pai, Joseph Jackson, bem interpretado por Colman Domingo. Essa é, claramente, uma visão parcial de quem foi o Rei do Pop.

A infância do cantor é acelerada, e temas importantes como o distúrbio de imagem são tratados em uma breve passagem, limitando-se a um diálogo durante uma cirurgia no nariz. O filme escolhe mostrar uma estrela diminuta, amedrontada, infantilizada e sem independência.

Conflitos e Relações Cruciais Deixadas de Lado

O filme ‘Michael’ sugere uma versão pacífica para eventos que, na realidade, foram cheios de conflitos. A saída da Motown, por exemplo, não foi uma anedota na carreira do cantor. Michael Jackson teve embates criativos com Berry Gordy antes de migrar para a CBS, fazendo sua ‘despedida’ no aniversário de 25 anos da Motown.

Outro ponto crucial minimizado é a relação com Quincy Jones. Ele foi peça-chave na construção de álbuns icônicos como ‘Off The Wall’ e ‘Thriller’. Quem assistir ao filme não terá a dimensão da parceria entre uma das maiores duplas da história da música pop, perdendo detalhes importantes sobre os bastidores.

Assim como outras cinebiografias musicais, a exemplo de ‘Bohemian Rhapsody’, que tem o mesmo produtor, Michael Graham King, ‘Michael’ se apoia excessivamente nas cenas musicais. Embora emocionantes, essa escolha compromete a profundidade narrativa e a exploração do personagem.

O Que o Futuro Poderia Trazer (e o que o filme evitou)

Ao final, a obra sugere uma continuação, o que levanta expectativas sobre o que ainda pode ser abordado. A carreira musical do Rei do Pop ainda guarda episódios marcantes que merecem registro, como o show no Super Bowl em 1993 e a gravação de ‘They Don’t Care About Us’ no Brasil.

No entanto, sem abordar escândalos de abuso, a criação de Neverland, aprofundar no vício em opioides após o acidente no comercial da Pepsi, e a complexa relação com o vitiligo, o público não terá a chance de conhecer integralmente um personagem tão complexo e cheio de camadas como Michael Jackson foi.

A ausência desses elementos cruciais impede que a cinebiografia ofereça uma visão completa e matizada do legado e da vida de Michael Jackson, deixando uma lacuna na compreensão de sua jornada humana e artística.

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