Nutricionista Jessica Soares, 35, reagiu bravamente com técnicas de luta contra Wellington de Oliveira Santos, criminoso com histórico e em livramento condicional.
A cidade de Barueri, na Grande São Paulo, foi palco de momentos de terror e bravura, quando uma nutricionista de 35 anos, Jessica Soares, enfrentou uma tentativa de estupro dentro de seu próprio apartamento. A vítima reagiu com uma luta corporal intensa, utilizando técnicas de defesa pessoal para imobilizar o agressor e salvar sua vida.
O incidente, que durou cerca de 20 minutos, chocou a comunidade e levantou sérias questões sobre a segurança em condomínios residenciais. O criminoso, identificado como Wellington de Oliveira Santos, conseguiu invadir o prédio sem ser notado por funcionários da portaria.
Câmeras de segurança registraram toda a ação, desde a entrada do suspeito no condomínio até a fuga de Jessica e o pedido de socorro aos vizinhos, conforme informações divulgadas pelo g1.
Invasão Silenciosa e o Início do Pesadelo
Na manhã de um sábado, 23 de maio, Wellington de Oliveira Santos aproveitou a saída de um morador para adentrar o condomínio, que supostamente utilizava reconhecimento facial para controle de acesso. As imagens mostram-no passando pela catraca da recepção sem ser percebido pelos funcionários, dirigindo-se aos elevadores e, em seguida, ao 18º andar.
No apartamento, Jessica Soares dormia sozinha. Seu namorado havia saído mais cedo, por volta das 7h, para um evento escolar da filha, deixando a porta apenas encostada. Segundo Jessica, essa era uma prática que não era incomum, dada a suposta segurança e controle de acesso do local. A nutricionista, natural de Fortaleza e moradora de São Paulo há cerca de um ano e meio, foi surpreendida pelo invasor descendo as escadas.
Ao perceber que não era seu namorado, Jessica fingiu dormir. O agressor colocou a mão em sua boca, mandando-a calar e fazendo menção de estar armado. Ele avançou sobre ela. “Eu achei estranho aquele excesso de cuidado para não me acordar. Quando vi que não era meu namorado, fingi que estava dormindo”, relembrou a nutricionista ao g1.
“Ele botou a mão na boca, mandando calar a boca e fez a menção de que tava armado. Ele veio para cima de mim, e eu levantei da cama. Comecei a gritar, perguntando quem ele era. Imagina, eu estava acordando com um homem que eu nunca vi na minha vida”, completou Jessica, descrevendo o momento de pânico.
A Luta Pela Sobrevivência e a Reação com o Mata-Leão
O ataque escalou rapidamente. O agressor jogou Jessica na cama, subiu em cima dela e tentou despir a vítima, enquanto continuava a tapar sua boca para impedir os gritos de socorro. Ele repetia: “cala a boca, é fita dada” e afirmou que a acompanhava há algum tempo, embora Jessica tenha declarado nunca o ter visto antes.
Apesar do terror, a nutricionista encontrou forças para reagir, utilizando sua experiência em artes marciais, como muay thai, boxe, jiu-jítsu e defesa pessoal, que praticou por anos. “Ele subiu em cima de mim e eu fiquei tentando tirar ele. Fiz uma elevação do quadril com muita força e consegui jogá-lo do outro lado da cama”, descreveu Jessica sobre o início da intensa luta.
A luta corporal se estendeu por mais de 20 minutos, um período de pura exaustão e desespero. O agressor desferiu socos contra a vítima, puxou seus cabelos, tentou sufocá-la e a derrubou da escada quando ela tentava escapar. Em um momento crucial, Jessica conseguiu imobilizar o agressor com as pernas e aplicar um mata-leão.
Contudo, mesmo imobilizado, ele persistiu no ataque, tentando consumar o estupro. Exausta, Jessica fingiu desistir, parando de bater com os braços para recuperar o fôlego, mas mantendo a imobilização com as pernas. “Eu já estava exausta. Pensei que o pior ia acontecer”, contou. “Parei de bater com os braços para tentar respirar, para ganhar fôlego e tempo. Só que eu não soltei a perna, porque se eu soltasse, eu sabia que ele ia me matar.”
No instante em que o agressor se levantou, ela desferiu um chute com toda a sua força, jogando-o contra a parede e causando um grande impacto. “Quando ele levantou, já soltei a perna bem rápido e chutei com toda a força da minha vida, literalmente. E aí, consegui jogar ele na parede. E foi uma pancada muito grande”, relatou a nutricionista.
Aproveitando a tontura do invasor, Jessica deu mais um soco e conseguiu correr para fora do apartamento, gritando por socorro. “Foi uma cena de filme de terror”, resumiu a nutricionista sobre a brutal tentativa de estupro.
Fuga, Resgate e a Prisão do Agressor
Desesperada, Jessica correu pelo corredor do condomínio, batendo nas portas dos vizinhos em busca de ajuda. As câmeras de segurança mostraram o suspeito a perseguindo logo atrás. Uma vizinha, sem hesitar, abriu a porta e correu em auxílio da nutricionista. “Ela não pensou duas vezes. Foi para cima dele para me defender”, afirmou Jessica.
Os gritos de socorro alertaram outros moradores, que deixaram seus apartamentos e conseguiram conter Wellington de Oliveira Santos até a chegada da Guarda Civil Municipal. Os agentes encontraram o agressor já imobilizado pelos vizinhos.
Jessica, que apresentava diversas lesões, foi imediatamente encaminhada a um pronto-socorro da região. O caso foi registrado na Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Barueri como tentativa de estupro, lesão corporal e violação de domicílio. A Polícia Civil apreendeu o celular do agressor para investigar se ele monitorava a rotina da nutricionista ou se contou com a participação de outras pessoas.
Histórico Criminal e Falha na Segurança do Condomínio
Wellington de Oliveira Santos passou por audiência de custódia no dia seguinte ao ataque, um domingo, e sua prisão em flagrante foi convertida em preventiva. Em depoimento, ele negou as acusações, alegando que tinha saído para beber e, ao retornar para casa, decidiu entrar no prédio para se abrigar da chuva. Ele afirmou que nenhum funcionário o abordou e que a porta do apartamento estava destrancada, encontrando Jessica assustada e gritando.
Documentos obtidos pelo g1 revelam que Wellington possuía um extenso histórico criminal e estava em livramento condicional. Em 2017, ele havia sido condenado a 11 anos e 4 meses de prisão por estupro, roubo com uso de arma, restrição da liberdade da vítima, violação de domicílio e constrangimento ilegal em um crime ocorrido em 2015. Ele obteve progressão para o regime semiaberto em 2020 e livramento condicional em julho de 2021.
O histórico criminal também inclui um caso de violência doméstica registrado em 2025, onde a Justiça concedeu medidas protetivas contra ele após denúncias envolvendo violação de domicílio, dano e agressões no contexto da Lei Maria da Penha.
A advogada da nutricionista, Silvana Campos, aponta que o condomínio deve ser responsabilizado pelas falhas de segurança que permitiram a entrada do suspeito. Segundo ela, as imagens são claras: Wellington acessou o prédio sem ser abordado por funcionários, permaneceu por alguns minutos no saguão e conseguiu passar pela catraca sem qualquer intervenção da portaria.
“Tudo teria sido evitado se houvesse uma segurança eficiente e uma portaria eficiente. Não adianta os condomínios divulgarem que possuem portaria e segurança monitorada se, quando necessário, elas não são efetivas”, declarou a advogada. Ela reforçou que a administração do condomínio não tomou providências imediatas, sendo os próprios moradores que acionaram a polícia.
A defesa de Jessica estuda medidas judiciais para buscar reparação pelos danos sofridos pela vítima e cobrar mudanças nos protocolos de segurança do condomínio. Após o crime, Jessica deixou o apartamento e está fazendo acompanhamento psicológico, enfrentando dificuldades para dormir sem medicação.