Investidores lucram milhões com queda do petróleo minutos antes de postagem de Trump sobre Irã, levantando suspeitas de informação privilegiada

Como movimentos atípicos no mercado de petróleo precederam o anúncio presidencial que fez os preços desabarem, gerando questionamentos sobre acesso indevido a dados.

Uma série de negociações milionárias no mercado de petróleo, realizada poucos minutos antes de uma postagem do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, gerou um debate intenso e levantou sérias suspeitas sobre a possibilidade de uso de informação privilegiada.

Os dados revelam um comportamento incomum de investidores que apostaram na queda do preço da commodity, obtendo lucros significativos logo após o anúncio de Trump sobre o Irã.

Esse cenário, que sugere um conhecimento prévio dos acontecimentos, é detalhado em uma análise da BBC, conforme repercutido pelo G1.

O Cenário Geopolítico e a Volatilidade do Petróleo

O mercado financeiro internacional tem sido palco de fortes oscilações, impulsionadas principalmente pelo conflito no Oriente Médio. Os preços do petróleo, em particular, dispararam devido ao aumento dos custos de produção e transporte.

No sábado, 21 de março, Trump havia ameaçado “aniquilar” as usinas de energia do Irã caso o país não abrisse o Estreito de Ormuz em 48 horas, uma rota crucial para cerca de 20% do petróleo e gás mundiais. Essa declaração levou a uma forte queda nos mercados asiáticos na segunda-feira seguinte, com o preço do petróleo em ascensão.

Contudo, na manhã de segunda-feira, às 8h04, horário de Brasília, antes da abertura dos mercados americanos, Trump publicou na rede Truth Social que Washington teve “conversas muito boas e produtivas” com Teerã, visando uma “resolução completa e total” das hostilidades. Imediatamente, as bolsas reagiram positivamente, e o preço do petróleo começou a cair, atingindo US$ 84 por barril.

Ações Suspeitas Minutos Antes do Anúncio

A atenção de analistas se voltou para o que ocorreu nos minutos que antecederam a postagem de Trump. Dados de mercado analisados pela BBC revelaram um volume de negociações fora do comum.

Às 7h49, quinze minutos antes da publicação de Trump, investidores fizeram 733 apostas em contratos de petróleo WTI na bolsa New York Mercantile Exchange (Nymex). Um minuto depois, esse número saltou para 2.007, movimentando o equivalente a US$ 170 milhões.

O mesmo padrão foi observado nos contratos de Brent, que serve como preço de referência do mercado. Em poucos minutos, o número de contratos saltou de 20 para 1.600, correspondendo a um valor de US$ 150 milhões. Dados de outras segundas-feiras indicam que tal volume de negociações nesse horário é altamente atípico.

Especialistas Questionam ‘Informação Privilegiada’

A atividade incomum levou a questionamentos sobre a possibilidade de alguns investidores terem conhecimento antecipado da medida. Mukesh Sahdev, principal analista de petróleo da XAnalysts, afirmou que “isso parece incomum, com certeza”.

Sahdev complementou, “naquele momento, não havia sinais de que nenhuma conversa séria estaria acontecendo entre EUA e Irã. Então apostar tanto dinheiro que o petróleo cairia é algo que desperta perguntas”.

Rachel Winter, parceira da empresa de gestão de patrimônio Killik & Co, observou que “um pouco antes da postagem na mídia social, muitas pessoas compraram contratos que os permitiriam lucrar com a queda do preço do petróleo”. Ela concluiu que “está havendo alguma especulação sobre informação privilegiada. Não sabemos se isso é verdade, mas esperamos que haja alguma investigação sobre isso”. A Casa Branca, em contato com o Financial Times, declarou que “não tolera qualquer autoridade do governo lucrando de forma ilegal com informação privilegiada”.

Negação do Irã e Precedentes

No final da segunda-feira, o governo do Irã negou qualquer negociação com os EUA, classificando a notícia como “fake news”. O presidente do parlamento iraniano, Mohammad-Bagher Ghalibaf, publicou no X que se tratava de “fake news usada para manipular mercados financeiros e de petróleo e escapar do atoleiro no qual os EUA e Israel estão presos”. Essa negação fez os mercados asiáticos subirem novamente na terça-feira.

A BBC informou ter entrado em contato com a Commodity Futures Trading Commission, regulador financeiro dos EUA, e a Financial Conduct Authority, do Reino Unido, e aguarda respostas sobre o caso.

Este não é o primeiro episódio em que a política externa americana é ligada a apostas no mercado. Em janeiro, houve um aumento significativo de apostas na plataforma Polymarket, onde muitos apostaram na derrubada do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, antes do fim do mês. Maduro acabou preso por forças americanas horas depois, e um apostador lucrou US$ 436 mil com uma aposta inicial de US$ 32 mil, reforçando o padrão de especulação em torno de eventos políticos.

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