A relação entre o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o presidente do Federal Reserve (Fed), Jerome Powell, foi marcada por uma intensa e pública tensão durante o segundo mandato de Trump. O embate central girava em torno da política monetária, com Trump defendendo cortes agressivos nas taxas de juros, enquanto Powell priorizava a independência da instituição e o controle da inflação.
Essa disputa, que escalou de críticas verbais a uma investigação criminal, revelou profundas divergências sobre a condução da economia americana. Os atritos constantes não apenas dominaram as manchetes, mas também geraram incerteza nos mercados.
A seguir, detalhamos os principais episódios dessa complexa e acalorada disputa, conforme informações divulgadas pelo G1, que culminou na busca por um sucessor para Powell.
A Origem da Disputa: Pressões Iniciais por Juros Baixos
O cenário de confrontos começou a se desenhar no primeiro semestre de 2025, quando Donald Trump intensificou suas críticas ao Federal Reserve e a Jerome Powell. A principal demanda do então presidente era por uma redução significativa nas taxas de juros, medida que, segundo ele, impulsionaria a economia.
Em março de 2025, Trump criticou abertamente a decisão do Fed de manter os juros estáveis, afirmando que a instituição estaria “muito melhor se cortasse as taxas”. Essa declaração marcou o início de uma série de ataques públicos.
No mês seguinte, em abril de 2025, conhecido como “Dia da Libertação”, o presidente defendeu que juros menores seriam cruciais para ajudar a economia a lidar com as novas tarifas de importação que estavam sendo implementadas, reforçando sua visão de que a política monetária precisava ser mais flexível.
O primeiro encontro presencial na Casa Branca, em maio de 2025, não suavizou as tensões. Trump disse diretamente a Powell que ele cometia um “erro” ao não reduzir os juros. Em resposta, Powell reafirmou a independência do Fed, declarando que as decisões sobre a política monetária dependeriam exclusivamente de dados econômicos e que a instituição agiria “conforme determina a lei… isento de influência política”.
A pressão aumentou em junho de 2025, quando Trump intensificou seus ataques nas redes sociais, chamando Powell de “burro” e “teimoso”. Ele chegou a sugerir que o Congresso deveria intervir. Em audiência no Congresso, Powell, ignorando os ataques pessoais, afirmou que “não precisamos ter pressa” para reduzir os juros, citando a incerteza inflacionária como um fator chave.
Escalada Verbal: Ataques Pessoais e Acusações Crescentes
O segundo semestre de 2025 foi marcado por uma escalada ainda mais agressiva nas críticas de Donald Trump a Jerome Powell. Os ataques passaram de divergências políticas para ofensas pessoais, demonstrando a profunda insatisfação do presidente com a postura do Fed em relação às taxas de juros.
Em julho de 2025, Trump elevou o tom, chamando Powell de “estúpido” e “cabeça oca”. Ele alegou que a política monetária estava “prejudicando as pessoas”, reiterando a necessidade de cortes nas taxas para estimular a economia.
As hostilidades continuaram em outubro de 2025, quando Trump se referiu a Powell como “chefe incompetente do Fed” e “cara ruim”. Na ocasião, ele chegou a prever que Powell sairia do cargo em poucos meses, indicando a profundidade de seu desejo por uma mudança na liderança do Banco Central.
Em novembro de 2025, a própria Casa Branca se manifestou, classificando Powell como uma “mula de teimosia” por sua recusa em reduzir as taxas de juros, especialmente enquanto a inflação permanecia acima da meta estabelecida, o que era visto como um obstáculo ao crescimento econômico.
O Ponto Crítico: Investigação Criminal e o Futuro de Powell
O conflito entre Trump e Powell atingiu seu ponto mais crítico em janeiro de 2026, com a abertura de uma investigação criminal pelo Departamento de Justiça (DOJ) contra o presidente do Fed. As acusações envolviam suposta má administração e mentiras ao Congresso sobre reformas nos prédios do Fed, adicionando uma nova e grave dimensão à disputa.
Em 11 de janeiro de 2026, Trump negou envolvimento direto na ação do DOJ. No entanto, ele aproveitou a oportunidade para criticar Powell, afirmando que “ele certamente não é muito bom no Fed e não é muito bom na construção de edifícios”, vinculando a crítica à investigação.
Jerome Powell respondeu publicamente em um vídeo, acusando o governo de usar a investigação como um “pretexto” para intimidação política. Ele afirmou categoricamente que “a ameaça de processos criminais é consequência do Fed definir as taxas com base no interesse público, não nas preferências do presidente”, defendendo a independência da instituição.
Poucos dias depois, em 14 de janeiro de 2026, Trump declarou à Reuters que não tinha planos imediatos de demitir Powell. No entanto, ele deixou claro que era “muito cedo” para decidir sobre o futuro do presidente do Fed, mantendo a pressão e a incerteza sobre seu cargo.
Em 29 de janeiro de 2026, após o Fed decidir manter as taxas de juros entre 3,50% e 3,75%, Trump voltou a atacar Powell, chamando-o de “imbecil”. Ele alegou que Powell estava “prejudicando o país e a segurança nacional”, afirmando que o Fed “está custando aos Estados Unidos centenas de bilhões de dólares por ano em juros totalmente desnecessários”.
O ápice da tensão veio em 30 de janeiro de 2026, quando Trump anunciou que indicaria um sucessor para Powell, cujo mandato terminaria em maio. O economista Kevin Warsh foi apontado como o principal cotado para assumir a presidência do Fed, marcando o fim de uma era de intensa rivalidade e o início de um novo capítulo na condução da política monetária americana.