Laudo Revela Múltiplas Fraturas em Técnica de Enfermagem Morta por Carro de Filha de Capitão da PM em RR, Acende Alerta para Falhas na Investigação

Exame cadavérico de Patrícia Melo, vítima de acidente em Boa Vista, contradiz avaliação inicial da polícia e aponta para possíveis irregularidades no atendimento da ocorrência.

A morte da técnica de enfermagem Patrícia Melo, de 53 anos, em Roraima, após ser atropelada por uma caminhonete dirigida por Amanda Kathryn, filha de um capitão da Polícia Militar, ganhou novos e preocupantes desdobramentos. Um laudo pericial detalhado revela a extensão das lesões sofridas pela vítima, levantando sérias dúvidas sobre a condução da ocorrência pela Polícia Militar.

As informações contidas no inquérito policial apontam para uma discrepância entre a avaliação feita no local do acidente pelo cabo Fernando Cordeiro Ledo e a gravidade real do caso, confirmada pelos exames médicos. Este cenário intensifica a necessidade de uma investigação minuciosa sobre as falhas no procedimento policial.

A revelação do laudo, que contraria a percepção inicial de “lesão corporal” por parte do policial, reacende o debate sobre a influência e o tratamento diferenciado em casos envolvendo pessoas ligadas a autoridades, conforme informação divulgada pelo g1.

A Violência do Impacto e a Confirmação do Laudo

O laudo pericial, ao qual o g1 teve acesso, descreve a violência do impacto sofrido por Patrícia Melo. A técnica de enfermagem sofreu múltiplas fraturas, incluindo lesões nas costelas, no crânio, além de inchaço cerebral e outras lesões na cabeça, evidenciando a brutalidade do atropelamento.

A causa oficial da morte foi determinada como traumatismo cranioencefálico grave, associado a um trauma no tórax. Esses achados médicos confirmam a condição crítica da vítima, que deu entrada na sala de reanimação do Hospital Geral de Roraima (HGR) e precisou ser intubada imediatamente. Poucos minutos depois, seu quadro se agravou, resultando em paradas cardíacas e na confirmação do óbito às 01h37 do dia 5 de fevereiro.

A gravidade das lesões, detalhada no prontuário médico, diverge completamente da percepção inicial da polícia, que minimizou a situação no local do acidente. Este contraste reforça a importância da perícia técnica em acidentes de trânsito com vítimas, especialmente quando há suspeitas de irregularidades.

Falhas no Atendimento da Ocorrência e Suspeita de Influência

A conduta do cabo Fernando Cordeiro Ledo, responsável pelo atendimento da ocorrência, está sob investigação. Ele não realizou o teste do bafômetro em Amanda Kathryn, não acionou a perícia e liberou a motorista ainda no local, alegando que não considerou necessário acionar a perícia por se tratar de “lesão corporal”.

Testemunhas relataram à Polícia Civil que Amanda Kathryn Monteiro de Souza, a motorista da caminhonete, usou a influência de seu pai, um capitão da PM, para receber tratamento diferenciado. Segundo os depoimentos, a jovem teria afirmado ser “filha de capitão da polícia”, o que teria motivado uma mudança na postura dos agentes e a subsequente alteração da cena do crime.

Uma das testemunhas afirmou ter ouvido Amanda, em uma videochamada, admitir que havia bebido, mas que “tinha sido cedo”. Outra testemunha ouviu a motorista dizer: “Tia, eu bebi, mas foi pouco e foi cedo”. Apesar dessas declarações, o teste do bafômetro não foi solicitado, o que levanta sérias questões sobre a imparcialidade da equipe policial.

Além disso, o próprio cabo Ledo teria ordenado a movimentação da caminhonete para desenganchá-la da motocicleta, alterando a posição dos veículos e, consequentemente, a cena do acidente. O boletim de ocorrência registrou que a perícia não foi acionada porque os veículos já haviam sido removidos, uma alegação que é contestada por vídeos e fotos que mostram a motocicleta presa ao para-choque da caminhonete.

O Que Dizem os Envolvidos e as Investigações

Em nota, a defesa de Amanda Kathryn afirmou que a estudante permaneceu no local para prestar socorro à vítima e que se prontificou a fazer o exame, mas que os agentes de segurança não o solicitaram. A defesa também argumenta que vídeos publicados em redes sociais mostram que ela não apresentava sinais de embriaguez.

O cabo Fernando Cordeiro Ledo orientou a reportagem a procurar a assessoria da PM. A Polícia Militar informou que a equipe realizou os levantamentos necessários e que a Corregedoria instaurará procedimento para apurar a conduta dos agentes. O cabo Ledo também tirou fotos do cenário do acidente, mas hoje reconhece que deveria ter acionado a perícia.

A Polícia Civil informou que o inquérito policial está em fase final de conclusão e que a ausência da realização de perícia no local do acidente está sendo analisada no âmbito da investigação. Amanda Kathryn optou por permanecer em silêncio durante seu depoimento à Polícia Civil.

O Histórico do Pai da Motorista

Amanda Kathryn é filha do capitão da PM Helton John Silva de Souza, cujo nome está envolvido em outro caso grave. O capitão é investigado por envolvimento no assassinato de um casal de agricultores, Flávia Guilarducci e Jânio Bonfim de Souza, em uma disputa por terras no município do Cantá.

Recentemente, o governo de Roraima instaurou um Conselho de Justificação para apurar a conduta ética e moral do capitão Helton John Silva de Souza, em decorrência de seu suposto envolvimento no crime. Este histórico familiar adiciona uma camada complexa ao caso da técnica de enfermagem Patrícia Melo, intensificando a pressão por uma investigação transparente e imparcial sobre as circunstâncias de sua morte e a atuação policial.

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