Em depoimento à polícia, Pedro José da Silva Gomes detalha momentos de terror, a aglomeração na proa e a chegada de ondas gigantes.
O naufrágio da lancha Lima de Abreu XV, que resultou em duas mortes no Encontro das Águas, em Manaus, ganha novos contornos com o depoimento do piloto. Pedro José da Silva Gomes, comandante da embarcação, atribui o trágico acidente a uma ventania súbita e a ondas de até três metros de altura.
O incidente, ocorrido durante o trajeto para Nova Olinda do Norte, teria sido agravado pelo deslocamento dos passageiros para a proa, a parte da frente do barco. Essa movimentação desequilibrou a lancha, contribuindo para o desfecho fatal, conforme o relato do piloto.
As informações foram divulgadas pelo G1, que teve acesso ao depoimento de Pedro José à polícia, oferecendo uma perspectiva crucial sobre os momentos que antecederam a tragédia do naufrágio em Manaus, que chocou a região.
O drama no Encontro das Águas: ventania e desespero
Pedro José da Silva Gomes contou em depoimento que chegou por volta das 10h de quinta-feira, 13 de fevereiro, à Balsa Amarela, no Porto Manaus Moderna. Ele era o comandante da lancha Lima de Abreu XV e responsável pelo trajeto até o município de Nova Olinda do Norte.
Segundo o piloto, a embarcação saiu do porto por volta das 12h30 e seguia normalmente até o Encontro das Águas, quando uma ventania forte começou. Ele disse ter reduzido a velocidade ao notar a mudança no tempo, mas o vento gerou desespero entre os passageiros.
Muitos passageiros teriam corrido para a parte da frente da lancha. O piloto afirmou ter orientado a todos para retornarem aos assentos, a fim de evitar que a embarcação inclinasse. No entanto, a movimentação já havia comprometido a estabilidade.
Pedro José relatou que a lancha foi atingida por uma primeira onda, que conseguiu “cortar”. Na segunda onda, passageiros abriram a porta da proa, permitindo a entrada de um grande volume de água na embarcação, piorando a situação de maneira drástica.
Com mais pessoas na frente, uma terceira onda atingiu a lancha, que a teria coberto completamente, provocando o afundamento pela proa, conforme o depoimento do piloto. Ele ressaltou que determinou a distribuição de coletes salva-vidas pelos tripulantes.
O piloto afirmou que havia coletes para todos os passageiros e que a lotação da lancha estava dentro do limite permitido. Ele também mencionou que um vendaval repentino continuou, gerando ondas de cerca de três metros, que quebraram os vidros da lancha, aumentando o caos.
Os motores não apresentaram pane, e a embarcação afundou com eles ainda em funcionamento. As ondas continuaram fortes por mais de uma hora após o naufrágio, dificultando significativamente o resgate. O socorro, ainda segundo o piloto, demorou mais de 40 minutos por causa das condições climáticas adversas.
A defesa do comandante e a apuração dos fatos
Em nota, a defesa do piloto informa que, desde o momento do ocorrido, ele permaneceu no local e prestou auxílio aos passageiros e tripulantes. A defesa também destaca que Pedro José colaborou de forma transparente para o esclarecimento dos fatos.
Por fim, a defesa manifesta solidariedade às vítimas e familiares, e reforça que as causas do ocorrido ainda dependem de apuração técnica especializada para serem completamente elucidadas. O comandante, Pedro José da Silva Gama, de 42 anos, foi preso em flagrante no porto da capital.
Após o pagamento de fiança, o piloto foi colocado em liberdade e responderá por homicídio culposo. A Marinha do Brasil instaurou um Inquérito Administrativo sobre Acidentes e Fatos da Navegação (IAFN) para investigar as causas e responsabilidades do acidente, conforme prevê a legislação.
Relatos de passageiros e as buscas por sobreviventes
O acidente ocorreu por volta das 12h30 de sexta-feira. Vídeos obtidos pela Rede Amazônica mostram várias pessoas na água, inclusive crianças, em cima de botes salva-vidas, enquanto aguardavam socorro. As imagens também registram embarcações próximas tentando auxiliar no resgate das vítimas.
Uma passageira que ficou à deriva relatou em vídeo que havia alertado o condutor da lancha para diminuir a velocidade devido ao banzeiro, ondas turbulentas características da região. No registro, gravado enquanto ela estava à deriva, a mulher afirma: “falei para ir devagar”.
A Marinha do Brasil informou que mantém equipes nas buscas pelo naufrágio da embarcação Lima de Abreu XV. O Comando do 9º Distrito Naval empregou uma aeronave, uma embarcação do 1º Batalhão de Operações Ribeirinhas e duas lanchas da Capitania Fluvial da Amazônia Ocidental.
De acordo com a Marinha, as buscas continuaram no sábado, 14 de fevereiro, tanto na área do acidente quanto nas margens dos rios, com apoio de embarcações e mergulhadores. A corporação informou ainda que coletou dados dos sobreviventes para ajudar nas buscas e na apuração do caso.