O Retorno dos IPOs: Por Que Empresas Brasileiras como PicPay e Agibank Escolhem os EUA e o Que Esperar do Mercado de Ações no Brasil?

Após quatro anos de hiato, empresas brasileiras como PicPay e Agibank buscam Wall Street, em meio a juros altos, mas o mercado local já projeta uma retomada.

O cenário para as ofertas públicas iniciais de ações, os IPOs, no Brasil tem sido de calmaria nos últimos quatro anos, mas um movimento de empresas brasileiras rumo à bolsa de valores reacende as discussões sobre o mercado de capitais.

Nesta quinta-feira, o banco digital PicPay realizou sua oferta na Nasdaq, nos Estados Unidos, marcando a primeira abertura de capital de uma companhia nacional desde 2021. O Agibank também anunciou planos de listar suas ações no exterior.

A preferência por bolsas americanas e as razões por trás da pausa nos IPOs brasileiros são temas centrais, conforme informações divulgadas pelo g1, que conversou com especialistas do setor financeiro.

Por que as empresas brasileiras estão voltando à bolsa?

Um IPO é a primeira oferta pública de ações de uma empresa, quando parte do capital é vendida a investidores. O objetivo é captar recursos para expandir operações, investir em projetos ou reduzir dívidas.

A volta das empresas brasileiras ao mercado de capitais, mesmo que inicialmente em bolsas estrangeiras, é vista como um sinal de que o cenário pode estar começando a mudar após um longo período de “ressaca”.

Segundo especialistas consultados pelo g1, o movimento reflete, em grande parte, as taxas de juros elevadas no Brasil. Atualmente, a Selic está em 15% ao ano, o maior patamar em duas décadas.

Roderick Greenlees, diretor global de investment banking do Itaú BBA, explica o impacto dos juros. “O que aconteceu no Brasil é que os juros subiram e não recuaram. Estamos falando de uma taxa real de dois dígitos, que é muito alta. Isso acaba inibindo investidores de fazer qualquer coisa que não seja comprar um instrumento de renda fixa”, afirmou.

Em 2021, ano com mais de 40 IPOs no país, a Selic subiu de 2% para 9,25% em dezembro, ainda considerada atrativa para o financiamento via mercado de capitais. Desde então, a taxa continuou subindo, atingindo 15% em junho do ano passado.

Juros mais altos tornam a renda fixa mais vantajosa, desviando recursos da bolsa e reduzindo o volume negociado em renda variável. Isso resulta em menor apetite por risco e uma demanda menor por novas ofertas de ações.

Bruno Saraiva, corresponsável pela área de banco de investimentos do Bank of America (BofA) no Brasil, complementa. “Essa é uma parte importante do quebra-cabeça que acabou se desfazendo nos últimos anos. À medida que os juros subiram, fundos de equity perderam muito dinheiro”, disse.

Greenlees ainda observa que “Se você observar os fundos multimercados e, principalmente, os de ações, eles foram praticamente extintos nos últimos dois ou três anos. Muitos acabaram sendo descontinuados por causa desse cenário”.

Por que nos EUA e não no Brasil?

A escolha de empresas brasileiras por bolsas americanas não é novidade. No caso do PicPay, outras empresas do setor financeiro e de pagamentos, como Nubank, PagSeguro, StoneCo e XP, também estão listadas em Wall Street.

Nos EUA, o ciclo de cortes de juros começou em setembro do ano passado, com o Federal Reserve (Fed) reduzindo as taxas. Atualmente, os juros americanos estão na faixa de 3,50% a 3,75%, um contraste com os 15% do Brasil.

Leonardo Resende, superintendente de empresas e mercado de capitais da B3, destaca que a decisão de listar no exterior depende de uma série de fatores. “Essa escolha depende de uma série de fatores, definidos caso a caso. Envolve uma análise do setor, da tese de investimento, do histórico da empresa e de onde os concorrentes estão listados, seja no Brasil ou em outros mercados”, explica.

Ele ressalta que “Abrir capital no exterior não é uma solução com resposta única para todos os casos. Vemos algumas companhias testando o mercado americano, mas também temos conversas com empresas interessadas em fazer uma emissão de ações na B3”.

O que esperar do futuro dos IPOs no Brasil?

Apesar da preferência atual por bolsas estrangeiras, há um otimismo cauteloso para o mercado brasileiro de IPOs nos próximos meses. A expectativa é que o Banco Central do Brasil (BC) inicie o ciclo de cortes de juros já no primeiro trimestre.

Dados do último boletim Focus indicam que a Selic deve encerrar este ano em 12,25% ao ano, representando uma redução de 2,75 pontos percentuais em relação ao patamar atual.

Greenlees, do Itaú BBA, comenta: “Não sei se essa queda esperada dos juros é suficiente para termos um mercado abundante como no passado, mas é suficiente para retomar algumas ofertas. A taxa ainda deve permanecer elevada, mas, para os padrões brasileiros, já é um bom sinal”.

Além dos juros, fatores como o cenário geopolítico global e os sinais de compromisso com a trajetória das contas públicas por parte do governo eleito no Brasil também estão no radar de investidores e empresas para o mercado de ações.

Saraiva, do BofA, conclui com uma visão de longo prazo. “Estamos cautelosamente otimistas para 2026, mas ainda será apenas o início de uma retomada, com poucas operações no Brasil”.

Ele acrescenta: “Se houver uma agenda de reformas com ajuste fiscal em 2027, independentemente do governo, e uma trajetória contínua de queda dos juros, acredito que voltaremos a um cenário de atividade muito maior no mercado de capitais brasileiro”.

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