Como o vergalho bovino, antes um resíduo, se tornou um produto de alto valor, movimentando milhões no agronegócio e conquistando diversos mercados.
Frigoríficos brasileiros estão encontrando uma fonte de lucro inesperada e robusta na venda de pênis bovino. O órgão, antes considerado um subproduto de menor valor, transformou-se em um item de alta demanda, tanto no mercado interno quanto internacional.
Com usos que vão desde petiscos nutritivos para animais de estimação até um cobiçado prato afrodisíaco em países asiáticos, o vergalho bovino demonstra a capacidade da indústria de transformar cada parte do boi em um negócio rentável.
Essa diversificação de mercado não só otimiza o aproveitamento do gado, mas também gera cifras milionárias, conforme informações divulgadas pelo g1.
A Produção e o Aproveitamento Integral do Boi
A extração do pênis bovino é um processo relativamente simples, segundo Marcos de Paula, especialista em exportação da Sul Beef. Diferente do ser humano, o órgão do boi é interno e pode atingir até um metro de comprimento.
Após a retirada, o vergalho é cuidadosamente higienizado e tem suas membranas removidas. Em seguida, cada peça é embalada individualmente. Para a comercialização, o produto é desidratado, o que reduz seu peso de aproximadamente 500 gramas para cerca de 200 gramas por unidade.
Marcos de Paula brinca que, do boi, “a gente só não aproveita o berro. E se bobear, o patrão manda fazer um CD com ele”, ilustrando o aproveitamento máximo de todas as partes do animal. A crina das orelhas, por exemplo, é usada em pincéis, enquanto os chifres viram berrantes ou são moídos para extintores de incêndio.
Outras partes, como o sangue e as glândulas, são destinadas à indústria farmacêutica. Miúdos como testículos e cérebro também encontram uso na culinária. De acordo com o especialista, todos os frigoríficos do Brasil comercializam o pênis bovino.
Bruno de Jesus Andrade, diretor de Projetos do Instituto Mato-grossense da Carne (Imac), confirma que o número de bois machos abatidos corresponde diretamente à produção de vergalhos. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, no 3º trimestre de 2025, o Brasil abateu mais de 5 milhões de bovinos machos, resultando em uma produção equivalente de vergalhos.
O Destino Multimilionário do Vergalho no Mercado Global
Curiosamente, não existem dados específicos sobre o volume exportado de pênis bovino. Isso ocorre porque o produto é categorizado oficialmente como “miudezas comestíveis de bovinos frescas ou refrigeradas”, juntamente com outros órgãos como o rim, ou como “preparações alimentícias” quando processado, explica Andrade.
Apesar da falta de dados detalhados, o Brasil faturou US$ 231.752 com a venda de “miudezas comestíveis de bovinos frescas ou refrigeradas” para o exterior, segundo a Agrostat, plataforma do Ministério da Agricultura. Em Hong Kong, o valor da tonelada do vergalho bovino pode atingir impressionantes US$ 6 mil, conforme o Imac.
Este valor é superior ao de outros miúdos exportados para a China, como o omaso, comercializado por até US$ 5,5 mil a tonelada, e o bucho, que chega a US$ 4 mil. O frigorífico Sul Beef, do Mato Grosso, revela que mais de 90% de suas vendas de vergalho são direcionadas ao mercado asiático, com o restante indo para o setor de petiscos para pets no Brasil, Paraguai e Estados Unidos.
Da Tradição Asiática ao Petisco Pet: Uma Mudança de Rota
Historicamente, o vergalho bovino foi mais popular entre os consumidores chineses, especialmente a população idosa. A medicina tradicional chinesa atribui ao seu consumo propriedades afrodisíacas, acreditando que ele pode prolongar o tempo da ereção e aumentar o desejo sexual. O chef Xiao Shan, por exemplo, afirma que comidas preparadas com pênis de animais aumentam a libido.
No entanto, a popularidade tem diminuído entre as gerações mais jovens da Ásia, que, segundo Andrade, “ocidentalizaram o hábito de consumo”. Ele compara essa mudança à menor procura por pratos tradicionais brasileiros como caldo de mocotó e buchada de bode entre os jovens.
Diante dessa mudança, o grande volume da produção brasileira de pênis bovino tem sido direcionado para a fabricação de petiscos para cachorros. Andrade destaca o crescimento dos cuidados com pets nos últimos anos, tornando esse mercado um destino promissor para o produto.
O vergalho bovino é considerado um produto natural, rico em nutrientes para os animais e “acabou sendo industrializado de uma maneira muito prática”, afirma Andrade. No mercado interno, o preço médio do quilo do vergalho atinge R$ 21, informa o Imac.
Uma pesquisa online realizada pelo g1 na quinta-feira (22) encontrou petiscos de vergalho bovino prontos para o consumo pet com preços variando entre R$ 12 e R$ 80, dependendo do peso e da apresentação.