Ameaças iranianas de tratar ataques como guerra e a pressão interna sem precedentes transformam a dinâmica de um possível confronto com os EUA, elevando o risco de um conflito maior.
A tensão entre Irã e Estados Unidos atinge um novo patamar, com Teerã alertando que tratará qualquer eventual ataque americano como um ato de guerra. Esta postura sugere que a próxima resposta do Irã a ataque dos EUA pode ser dramaticamente diferente das ocasiões anteriores, com consequências imprevisíveis para a estabilidade regional.
Líderes iranianos enfrentam uma complexa encruzilhada, pressionados por protestos domésticos que clamam pela derrubada do regime, ao mesmo tempo em que lidam com as intenções deliberadamente ambíguas do presidente americano, Donald Trump. Tal cenário alimenta a ansiedade não só em Teerã, mas em toda a já instável região do Oriente Médio.
A possibilidade de uma escalada de tensão é real, e a forma como o Irã reagirá a um possível ataque militar americano pode fugir do padrão cuidadosamente calibrado observado em confrontos passados com Washington, conforme informação divulgada pelo g1.
Um Padrão de Retaliação Calibrada que Pode Mudar
Nos últimos anos, o Irã demonstrou uma preferência por retaliações limitadas e posteriores, buscando sinalizar determinação sem provocar uma guerra em larga escala. Um exemplo claro foi após os ataques dos Estados Unidos a instalações nucleares iranianas, em 21 e 22 de junho de 2025.
O Irã respondeu no dia seguinte com um ataque de mísseis à Base Aérea de al-Udeid, no Catar, operada pelos Estados Unidos. O presidente Trump afirmou que o Irã alertou antecipadamente sobre o ataque, permitindo que as defesas antiaéreas interceptassem a maioria dos projéteis e evitando mortes.
Essa ação foi amplamente interpretada como uma tentativa deliberada de Teerã de reafirmar sua posição, mas com o cuidado de evitar uma guerra maior. Um padrão similar já havia sido observado em janeiro de 2020, durante o primeiro mandato de Donald Trump.
Naquela ocasião, após o assassinato do comandante da Força Quds, Qassem Soleimani, perto do aeroporto de Bagdá, no Iraque, o Irã retaliou cinco dias depois. Mísseis foram disparados contra a base aérea americana de Ain al-Asad, também no Iraque.
Assim como em 2025, Teerã alertou com antecedência sobre o ataque, e nenhum militar americano foi morto, embora dezenas tenham relatado lesões cerebrais traumáticas. Esse episódio reforçou a percepção de que o Irã buscava gerenciar a escalada das agressões, em vez de provocá-las.
A Tensão Interna: Motor de uma Resposta Mais Forte
O momento atual, no entanto, é significativamente diferente. O Irã está emergindo de uma das mais sérias ondas de distúrbios domésticos desde a fundação da República Islâmica, em 1979.
Os protestos que eclodiram no final de dezembro e início de janeiro foram brutalmente reprimidos. Organizações de defesa dos direitos humanos e profissionais médicos iranianos relatam que milhares de pessoas foram mortas, e muitas outras ficaram feridas ou foram detidas.
A impossibilidade de verificar os números exatos, devido à falta de acesso a dados e a um apagão da internet mantido por mais de duas semanas, contribui para a incerteza. As autoridades iranianas não assumiram a responsabilidade pelas mortes, atribuindo-as a "grupos terroristas" e acusando Israel de incentivar os distúrbios.
Esta narrativa foi defendida pelos níveis mais altos do Estado iraniano. O secretário do Conselho Nacional Supremo de Segurança do país chegou a afirmar que os protestos devem ser vistos como uma continuação da guerra de 12 dias contra Israel, no ano passado.
Esse enquadramento da situação, que prioriza a segurança, pode ter sido utilizado como justificativa para a escala e intensidade da repressão. Embora a escala dos protestos nas ruas tenha diminuído, eles não terminaram, e a divisão entre grandes setores da sociedade e o sistema governante raramente pareceu tão ampla.
Nos dias 8 e 9 de janeiro, forças de segurança teriam perdido o controle de partes de diversas cidades e de certos bairros das capitais. A recuperação do controle foi feita à força, de maneira contundente. Essa rápida perda de controle parece ter inquietado profundamente as autoridades, e a calma que se seguiu foi imposta, não negociada, deixando a situação altamente volátil.
Cenários de Escalada: Repressão Interna ou Caos Regional
Em um cenário tão delicado, a natureza de qualquer ataque dos EUA se torna crítica. Um ataque limitado pode permitir a Washington reivindicar sucesso militar, evitando uma guerra regional imediata, mas poderá fornecer às autoridades iranianas um pretexto para mais uma rodada de repressão interna.
Este cenário apresenta o risco de mais prisões em massa, repressão e uma nova onda de sentenças rigorosas, incluindo condenações à morte para manifestantes já detidos. A instabilidade interna do Irã seria agravada.
No outro extremo, uma campanha militar americana maior, que enfraqueça significativamente ou paralise o Estado iraniano, poderá levar o país à beira do caos. O súbito colapso da autoridade central em um país com mais de 90 milhões de habitantes dificilmente geraria uma transição limpa ou rápida.
Pelo contrário, poderia haver um período de instabilidade prolongada, violência entre facções e prejuízos para toda a região, com consequências que podem perdurar por anos até sua resolução. Esses riscos ajudam a explicar a retórica cada vez mais inflexível de Teerã.
Os principais comandantes da Guarda Revolucionária Islâmica e das Forças Armadas comuns, ao lado das autoridades políticas, alertaram que um eventual ataque norte-americano, independentemente da escala, será tratado como um ato de guerra. Essas declarações inquietaram os países vizinhos do Irã.
Particularmente os Estados do Golfo que mantêm bases americanas em seu território. Uma rápida reação iraniana colocaria esses países, ao lado de Israel, em risco imediato, independentemente do seu envolvimento direto. Isso cria a perspectiva de um conflito que pode se espalhar muito além do Irã e dos Estados Unidos.
Pressões Mútuas e o Perigoso Jogo de Equilíbrio
Washington também enfrenta restrições. Donald Trump alertou repetidas vezes às autoridades iranianas sobre o uso de violência contra os manifestantes. No auge dos distúrbios, o presidente dos Estados Unidos declarou aos iranianos que "a ajuda está a caminho".
Essas observações circularam amplamente dentro do Irã e aumentaram a expectativa entre os manifestantes. Ambos os lados estão conscientes do quadro estratégico como um todo. Donald Trump sabe que o Irã, hoje, é militarmente mais fraco do que durante a guerra dos 12 dias.
Teerã, por sua vez, está consciente de que o presidente americano tem pouca disposição para um conflito aberto em larga escala. Essa consciência mútua pode oferecer uma certa tranquilidade, mas também poderá criar visões equivocadas e perigosas.
Cada lado pode potencialmente superestimar sua força ou interpretar erroneamente as intenções do seu oponente. Para Trump, é fundamental encontrar o equilíbrio, seja ele qual for. Ele precisa de um resultado que possa apresentar como vitória, sem levar o Irã a um novo ciclo de repressão ou ao caos.
Para os líderes iranianos, o perigo reside no momento e na percepção. O modelo anterior do Irã, de retaliação simbólica posterior, pode não ser mais suficiente se seus líderes acreditarem que a rapidez é fundamental para reafirmar a dissuasão externa e o controle interno, abalado pela escala dos distúrbios recentes.
No entanto, uma reação rápida aumentaria significativamente o risco de erros de cálculo, levando as forças regionais a um conflito que poucos podem se permitir. Com os dois lados sob intensas pressões e pouco espaço de manobra, um longo jogo de temeridade política pode estar se aproximando do seu momento mais perigoso.
Afinal, o custo de atingir o equilíbrio errado prejudicaria não só os dois governos, mas milhões de iranianos comuns e a região como um todo, transformando a resposta do Irã a ataque dos EUA em um evento de proporções globais.