Quem Decide no Irã? O Enigma da Liderança de Mojtaba Khamenei e o Poder Crescente do CGRI e Qalibaf em Meio à Crise Regional

A ausência do Líder Supremo Mojtaba Khamenei, invisível em meio à guerra, redefine a tomada de decisões no Irã, com o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI) e Mohammad Baqer Qalibaf ganhando poder.

Desde o início dos conflitos entre Estados Unidos e Israel contra o Irã, uma pergunta crucial paira sobre Teerã: quem realmente está no comando? Formalmente, a resposta parece clara, apontando para o novo Líder Supremo.

Contudo, a realidade por trás da liderança iraniana é muito mais complexa e difusa do que a estrutura oficial sugere. Há um vácuo de poder perceptível que tem impactado diretamente as estratégias do país.

As informações sobre essa dinâmica vêm à tona, revelando uma série de fatores que moldam a tomada de decisões no Irã, conforme divulgado pela BBC.

Um Líder Invisível e Ferido

Mojtaba Khamenei assumiu o cargo de Líder Supremo após a morte de seu pai, Ali Jamenei, no primeiro dia da guerra, em 28 de fevereiro. No sistema da República Islâmica, essa posição foi concebida para ser decisiva, com a palavra final sobre questões cruciais como guerra, paz e a direção estratégica do Estado.

No entanto, Mojtaba Khamenei não foi visto em público desde que chegou ao poder. Além de algumas declarações escritas, como a que insiste no fechamento do estreito de Ormuz, há poucas evidências diretas de seu controle cotidiano sobre o país.

Autoridades iranianas reconheceram que ele ficou ferido nos ataques iniciais, mas ofereceram poucos detalhes. O jornal “The New York Times”, citando fontes iranianas, informou que ele pode ter sofrido vários ferimentos, incluindo lesões no rosto que dificultariam sua fala.

Essa ausência é significativa, pois no sistema político do Irã, a autoridade não é apenas institucional, mas também performativa. Ali Jamenei, por exemplo, sinalizava suas intenções por meio de discursos e aparições públicas, arbitrando visivelmente entre as diferentes facções.

A ausência de Mojtaba cria um vazio de interpretação. Alguns argumentam que sua ascensão em tempos de guerra simplesmente não permitiu que ele estabelecesse sua autoridade. Outros questionam sua capacidade de gerir ativamente o sistema devido às lesões. Em qualquer caso, a tomada de decisões parece menos centralizada do que antes da guerra.

Diplomacia em Segundo Plano

No papel, a diplomacia do Irã recai sobre o governo do presidente Masoud Pezeshkian, com o chanceler Abbas Araghchi representando Teerã nas conversas com os EUA. Contudo, nenhum dos dois parece estar definindo a estratégia principal, e sua autoridade é questionada pelo fato de a delegação iraniana ser liderada pelo presidente do Parlamento, Mohammad Baqer Qalibaf.

O papel de Araghchi parece mais operacional do que decisório. Seu breve desencontro sobre a abertura ou fechamento do estreito de Ormuz, onde ele primeiro sugeriu a retomada do tráfego e rapidamente se retratou, revelou quão pouco o canal diplomático controla as decisões militares.

Pezeshkian, por sua vez, alinhou-se à orientação geral da República Islâmica sem moldá-la de forma visível. Considerado uma figura relativamente moderada, o presidente iraniano evitou impulsionar uma linha independente, o que se reflete nos atrasos das conversas com os EUA.

Mesmo com os canais diplomáticos abertos, o sistema parece incapaz ou pouco disposto a se comprometer, evidenciando a complexidade da tomada de decisões no Irã e a influência limitada da esfera diplomática em momentos de crise.

O Crescente Poder Militar

O controle do estreito de Ormuz representa a alavanca mais imediata do Irã. No entanto, as decisões sobre seu fechamento recaem sobre o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI), liderado por Ahmad Vahidi, e não sobre a equipe diplomática.

Essa dinâmica coloca o poder real nas mãos de atores que operam a portas fechadas. Diferentemente de crises anteriores, não há uma única figura identificável que se aproprie claramente da estratégia geral. Em vez disso, observa-se um padrão de ações primeiro, seguidas por mensagens, nem sempre coerentes.

Na prática, são as ações do CGRI, seja ao fazer cumprir o fechamento de Ormuz ou ao atacar alvos no Golfo, que parecem ditar o ritmo da crise. As respostas políticas e diplomáticas frequentemente seguem essas decisões, em vez de liderá-las.

Isso não significa necessariamente uma ruptura das esferas administrativas, mas sugere que a autonomia operacional do CGRI se ampliou, ao menos temporariamente, na ausência de uma arbitragem política clara por parte da liderança iraniana.

Qalibaf: Uma Figura em Ascensão

Em meio a essa ambiguidade na tomada de decisões, surge Mohammad Baqer Qalibaf. Ex-comandante da Guarda Revolucionária e atual presidente do Parlamento, Qalibaf tornou-se uma das figuras mais visíveis do momento, inserindo-se ativamente nas negociações e falando ao público.

Por vezes, Qalibaf enquadrou a guerra em termos mais pragmáticos do que ideológicos. Dentro do Parlamento e nos círculos conservadores, a resistência às negociações continua forte, com a mídia estatal e campanhas públicas apresentando as conversas como um sinal de fraqueza.

A posição de Qalibaf é, portanto, precária: ativa, mas sem uma autorização claramente definida. Ele insiste que suas ações estão alinhadas com os desejos de Mojtaba Khamenei, mas há poucas evidências visíveis de coordenação direta entre eles.

Em um sistema que depende de sinais vindos do topo para a tomada de decisões, essa ambiguidade é reveladora da fragmentação atual na liderança iraniana.

Coerência Questionada

No conjunto, todas essas dinâmicas apontam para um sistema que, embora funcione, não é conduzido de maneira coerente. A autoridade do Líder Supremo existe, mas não é exercida de forma visível. A Presidência está alinhada, mas não lidera as decisões.

A diplomacia está ativa, mas não é decisiva. O establishment militar possui alavancas-chave, mas sem um arquiteto público claro. Figuras políticas avançam, mas sem uma legitimidade nítida para a tomada de decisões.

Isso não representa um colapso, a República Islâmica permanece intacta. No entanto, sugere algo mais sutil: um sistema que luta para converter a influência que possui, como a capacidade de fechar o estreito de Ormuz, em uma estratégia definida em um momento de pressão aguda.

O Irã ainda consegue atuar em múltiplas frentes, mas tem dificuldade em sinalizar uma direção clara para seus próprios centros de poder. No modelo político iraniano, a coerência é mantida por meio de indicações vindas do topo.

Por ora, o sistema resiste à pressão, mantém o controle e evita qualquer desmoronamento visível. No entanto, a questão que se impõe é se a coerência está sendo efetivamente praticada ou se é apenas uma declaração de intenções, em meio à complexa tomada de decisões no Irã.

Tags

Compartilhe esse post