O domingo marca o fim de um capítulo marcante na história de Brasília com a implosão do Torre Palace, o emblemático hotel que já foi sinônimo de luxo e sofisticação na capital federal. Após anos de abandono e disputas, o edifício dará lugar a um novo empreendimento, prometendo renovar a paisagem do Setor Hoteleiro Norte.
A trajetória do Torre Palace é uma montanha-russa, passando de um dos mais cobiçados destinos para hóspedes exigentes a um ponto de degradação e insegurança. Sua queda reflete não apenas problemas de gestão, mas também desafios urbanos e sociais que Brasília enfrentou ao longo das últimas décadas.
Acompanhe os detalhes dessa história fascinante, desde sua inauguração glamorosa até a complexa saga jurídica e social que culminou na decisão de sua implosão, conforme informações divulgadas pelo g1.
Do Luxo e Glória ao Esquecimento
Inaugurado em 1973 pelo empresário libanês Jibran El-Hadj, o Torre Palace rapidamente se estabeleceu como o primeiro hotel de luxo de Brasília. Com 14 andares e 140 apartamentos, ele oferecia uma vista privilegiada para os principais monumentos do Eixo Monumental, incluindo o Congresso Nacional e a Esplanada dos Ministérios.
Sua localização no Setor Hoteleiro Norte e o padrão de serviço o tornaram um ícone, atraindo personalidades e turistas. No entanto, o brilho começou a se apagar após a morte do patriarca em 2000, quando a família herdou um patrimônio avaliado, à época, em R$ 200 milhões.
A falta de consenso sobre o futuro do empreendimento levou a profundos desentendimentos. Em 2007, três dos filhos de Jibran El-Hadj deixaram a sociedade e buscaram na Justiça sua parte da herança, estimada em R$ 51 milhões, que seria proveniente da venda do hotel a uma construtora.
A construtora chegou a adiantar R$ 17 milhões aos herdeiros que permaneceram na sociedade. Contudo, antes que a venda fosse finalizada, a Justiça interveio e penhorou o imóvel, mergulhando o Torre Palace em um limbo jurídico que o levaria ao abandono.
O Abandono Transforma o Cenário
A partir de 2015, o imponente hotel de luxo de Brasília tornou-se um esqueleto urbano, um ponto de encontro para usuários de drogas e pessoas em situação de rua. Vidros quebrados, pichações e a fachada danificada eram a triste realidade de um local que já ostentou opulência.
Relatos de hóspedes e funcionários de hotéis vizinhos descreviam um cenário de terror. Os “invasores” ocupavam os andares durante a madrugada, atirando objetos das janelas e ameaçando pedestres, transformando a região em um foco de insegurança.
Operações Policiais e Tentativas de Recuperação
Em junho de 2016, uma megaoperação da Polícia Militar do Distrito Federal foi deflagrada para desocupar o prédio. A ação, que durou cerca de 40 minutos, envolveu dois helicópteros, balas de borracha e bombas de efeito moral, com a participação de aproximadamente 200 homens do Batalhão de Choque e Bope.
Os ocupantes, muitos deles ligados a movimentos sociais, resistiram com pedras, tijolos e telhas, chegando a incendiar o topo do edifício com um fogão e um botijão de gás. A operação resultou em detenções e uma pessoa ferida no rosto, mas conseguiu, temporariamente, esvaziar o local.
No entanto, a tranquilidade foi breve. Dois anos após a desocupação, o Torre Palace voltou a ser frequentado por usuários de drogas. Apesar das entradas do térreo terem sido bloqueadas com concreto, pessoas escalavam as paredes para acessar os andares superiores, conforme relatado por clientes e funcionários da região ao g1.
Leilões Frustrados e a Decisão Final
A busca por uma solução para o Torre Palace passou por tentativas de leilão. Em 2020, o hotel foi avaliado em R$ 35 milhões para um leilão judicial, destinado a pagar dívidas trabalhistas de ex-funcionários, mas não recebeu nenhum lance em seis dias de pregão online.
Uma segunda tentativa, em 16 de dezembro de 2020, culminou na arrematação do imóvel pela empresa RBS Administração de Imóveis LTDA por R$ 17,6 milhões. Contudo, a empresa posteriormente pediu desistência da compra, o que foi aceito pela Justiça, prolongando o impasse.
O Governo do Distrito Federal também se empenhou na demolição do prédio. Em 2019, o pedido foi feito, mas um laudo pericial indicou a ausência de risco estrutural iminente, apesar das péssimas condições. A Justiça, então, condenou os proprietários a realizar obras de manutenção urgentes, sob pena de multa diária de R$ 5 mil, limitada a R$ 5 milhões.
Diante do descumprimento dessa decisão e do contínuo abandono, o DF Legal encaminhou um novo pedido de demolição. Finalmente, no último semestre, o imóvel foi transferido para novos proprietários, pavimentando o caminho para a implosão e o início de uma nova fase para o lote às margens do Eixo Monumental.