Empresária goiana, sogra de governador, presa por migração ilegal para os EUA prometia ‘tirar’ imigrantes e movimentou R$ 45 milhões

Áudios revelam como Maria Helena de Sousa Netto Costa, presa em Goiás, chefiava esquema de migração ilegal para os EUA, prometendo ‘soltar’ detidos em rede que movimentou R$ 45 milhões.

A Polícia Federal (PF) deflagrou uma operação em Goiás que resultou na prisão de uma empresária acusada de liderar um elaborado esquema de migração ilegal para os Estados Unidos. A suspeita, Maria Helena de Sousa Netto Costa, é sogra do governador de Goiás, Daniel Vilela.

Áudios obtidos com exclusividade pela TV Anhanguera e divulgados pelo g1 revelam a empresária se vangloriando de sua habilidade em libertar imigrantes detidos pelas autoridades americanas, afirmando que ‘sempre tiro’ aqueles que são presos.

A investigação aponta que o grupo chefiado por Maria Helena movimentou cerca de R$ 45 milhões entre 2018 e 2023, como parte de uma rede maior que, no total, teria movimentado R$ 240 milhões no mesmo período, conforme informação divulgada pelo g1.

As Promessas de Liberdade e a Rota Perigosa

Em uma das gravações acessadas pela TV Anhanguera, Maria Helena afirma com convicção: “Os meninos foram presos. Eu consigo tirá-los. Tiro, sempre tiro…todos que ficam eu tiro. Eu tiro para depois receber, né? Eu quero saber se você quer que eu tiro…que eu já providencio isso”. Essa promessa de resgate era parte do serviço oferecido aos migrantes.

O inquérito detalha o caso de Francisco Firmino de Souza Filho, de Rondônia, que pagou US$ 22 mil em 2018 para entrar ilegalmente nos EUA. Durante a travessia, a empresária chegou a encaminhar mensagens do próprio coiote para a esposa de Francisco, Rosemilda, alertando sobre o grande perigo e a presença de muita polícia na fronteira.

Ainda em conversa com Rosemilda, Maria Helena garantia a segurança do trajeto escolhido pelo seu grupo, mesmo com as adversidades. “É um caminho que você anda, mas chega. Eu sempre falo ‘quando eu ponho o meu dinheiro na frente, o caminho que eu ponho é esse’. Porque esse caminho chega 97% e no outro chega 70%’”, disse ela, tentando tranquilizar a esposa de Francisco.

Um comprovante de pagamento, obtido pela TV Anhanguera, liga Francisco a Maria Helena, registrando uma transferência bancária para a suspeita em 25 de março de 2019, quando ele já estava na cidade de Harrison, Arkansas. O documento também exibe o endereço da empresária em Goiânia, Setor Jaó.

O Papel da Empresária no Esquema de Migração Ilegal

O inquérito, já encaminhado ao Ministério Público Federal, aponta que Maria Helena mantinha contato direto com os ‘coiotes’, os intermediários responsáveis por levar os imigrantes ilegalmente do México para os Estados Unidos. Além disso, ela era encarregada de comprar passagens aéreas e providenciar a contratação de advogados em caso de detenção pelo serviço de imigração.

Maria Helena entrou na mira da Polícia Federal em 2022, quando seu nome foi citado por brasileiros abordados por agentes da PF no aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Ela é suspeita de chefiar um dos cinco grupos criminosos especializados em enviar brasileiros ilegalmente para os Estados Unidos, atuando entre 2018 e 2023.

A empresária e as outras três pessoas presas em Goiânia são suspeitas de três crimes: promoção de migração ilegal, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Se condenadas, as penas podem chegar a 23 anos de prisão. As investigações revelaram que, de 2018 a 2023, as cinco quadrilhas movimentaram um total de R$ 240 milhões, sendo R$ 45 milhões atribuídos à organização chefiada por Maria Helena.

Para entrar ilegalmente nos Estados Unidos, cada brasileiro desembolsava, em média, US$ 20 mil. Em cinco anos, estima-se que 477 pessoas foram enviadas para o território norte-americano, embora os investigadores acreditem que esse número possa ser ainda maior. A PF informou que dois outros chefes, que não foram encontrados no Amapá, foram incluídos na lista da Interpol.

Conexões Políticas e a Defesa da Empresária

Maria Helena de Sousa Netto Costa é sogra do governador de Goiás, Daniel Vilela (MDB). No entanto, a Polícia Federal e o próprio governador afirmam que ele e sua esposa não são investigados. Em nota, Daniel Vilela esclareceu que “o caso envolvendo a senhora Maria Helena de Souza Costa não tem absolutamente nenhuma relação com o governador Daniel Vilela e com sua mulher, Iara Netto Vilela. São fatos investigados desde meados dos anos 2000, segundo divulgou a própria Polícia Federal, e não envolvem em nenhum momento o governador ou o governo de Goiás”.

A defesa de Maria Helena de Sousa Netto Costa se manifestou publicamente, afirmando que sua cliente recebeu as medidas cautelares com surpresa e aguarda acesso aos autos para análise técnica. Os advogados Luiz Inácio Medeiros Barbosa, Jorge Augusto dos Reis e Guilherme Alves Machado declararam a “absoluta desnecessidade da prisão preventiva decretada”, argumentando que Maria Helena não representa risco à ordem pública, à instrução criminal ou à aplicação da lei penal.

Os advogados reafirmaram a confiança no Poder Judiciário e lamentaram a divulgação seletiva de informações sigilosas. Os presos passaram por audiência de custódia e foram levados para o Complexo Prisional de Goiás, enquanto a defesa busca o restabelecimento imediato da liberdade da empresária.

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